Chargistas explicam grande participação de brasileiros em festival sobre Holocausto

Mais do que a proposta polêmica, o festival iraniano de charges sobre o Holocausto, que estreou na segunda-feira em Teerã, deve chamar a atenção do público brasileiro por um motivo específico: o Brasil é o país com o terceiro maior número de artistas inscritos, perdendo apenas para o próprio Irã e para a Turquia, ambos com população de maioria muçulmana. Em cartaz no Museu Palestina de Teerã até o dia 13 de setembro, a competição foi proposta durante a onda de protestos mundiais contra as caricaturas do profeta Maomé publicadas pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten no ano passado. Muitos muçulmanos consideraram os desenhos ofensivos. A polêmica provocou a reação do jornal iraniano Hamshahri, controlado pelo governo de Teerã, que propôs a realização do festival. A iniciativa teve amplo apoio do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad - que não hesita em pôr em dúvida a ocorrência do Holocausto e defende a destruição do Estado de Israel.Entrevistado pelo jornal britânico The Guardian, o editor do Hamshahri, Farid Mortazavi, explica o objetivo da exposição: "Os jornais do Ocidente publicaram esses desenhos profanos sob o pretexto da liberdade de expressão, então vamos ver se eles confirmam o que disseram e também publicam esses desenhos do Holocausto".A justificativa de Mortazavi, no entanto, não explica, por si só, o que motivou tantos cartunistas brasileiros (21 no total) a se inscreverem no festival. Para entender o fenômeno, o portal Estadao.com.br falou com dois desenhistas de renome no País. Para o presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil, o chargista José Alberto Lovetro, o JAL, parte da explicação está no grande número de desenhistas brasileiros e na falta de canais para esses artistas se expressarem. Assim, quando há festivais internacionais, o Brasil é sempre um dos países com maior número de inscritos.Além disso, JAL explica que é grande o intercâmbio entre artistas iranianos e brasileiros. Em constante contato com a organização de festivais de humor, ele explica que muitos artistas de países de maioria muçulmana costumam participar dos eventos no País. "Pode parecer estranho, mas o Irã é um dos países com maior número de humoristas por metro quadrado", diz. Explicação semelhante também foi dada por Eloar Guazzelli, que participa do festival. Com várias premiações no currículo - como o Excellence Prise do jornal japonês Yomiury Shimbum e o 1º lugar na edição de 2002 do Salão Internacional de Humor de Piracicaba -, o quadrinista acredita que o fenômeno deva-se principalmente à grande atuação brasileira em competições internacionais. Segundo o autor, é no mercado exterior que os conterrâneos encontraram espaço para divulgar seus trabalhos. "Somos mais reconhecidos lá fora do que aqui dentro", lamenta. Críticas a IsraelOs dois desenhistas reconhecem, no entanto, que outra parte da explicação deve-se também a um forte componente de crítica à atuação de Israel no Oriente Médio. Mas, enquanto JAL afirma que não participaria do concurso por considerar tanto os desenhos de Maomé quanto a resposta iraniana inadequadas, Guazzelli diz ter aderido ao concurso por sentir-se indignado diante do que está ocorrendo "na Palestina".Ainda assim, ele afirma que, no início, temia que a exposição tivesse uma vertente anti-semita. "Porém, ao acessar o site (do evento) e ver que um dos seus temas era por que os palestinos têm de pagar o preço pelo Holocausto, vi que não era esse o propósito", afirmou.Embora também critique a atuação militarista do Estado judeu, JAL, por sua vez, diz preferir não endossar "nada que leve ao radicalismo". Isso, no entanto, não o impede de criticar a forma como a crise das charges de Maomé foi explorada pela mídia ocidental. Segundo ele, o humor - "uma forma de expressão anarquista" - deve ser livre, mas não desrespeitoso. Para ilustrar a opinião, ele lembra a história do cartunista Otávio, que nos anos 60 perdeu o emprego no jornal Última Hora por publicar, às vésperas de um clássico entre Corinthians e Santos, uma charge de Nossa Senhora com a cara de Pelé. "Uma multidão de religiosos cercou a porta do jornal, que teve de encerrar o expediente por um bom tempo. Otávio foi demitido e teve de pedir proteção policial."Isso não significa, no entanto, que assuntos espinhosos, como a religião, não possam ser tratados pelos cartunistas. Para JAL, tudo depende de como a charge é trabalhada. Guazzelli, por sua vez, parece preferir ter uma abordagem menos otimista do mundo de onde tira suas inspirações. "Infelizmente, devido a esses conflitos" não só no Oriente Médio, mas no mundo todo, é "como se estivéssemos entrando em um gibi futurista", com temática apocalíptica, diz. "Para mim, a humanidade já acabou."

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