Chávez ameaça com contra-ataque revolucionário

No dia em que o empresariado da Venezuela fechou as portas ao governo Hugo Chávez, o presidente radicalizou e avisou aos opositores que, além de não estar disposto a dialogar, não aceitará novas manifestações como a desta segunda-feira, em que o protesto deu um ar de domingo ao país, em plena segunda-feira. "Não tenho nada que falar com os imorais. Não tenho que discutir imoralidades. Não vou sentar com a oligarquia para trair o povo", discursou Chávez, paramentado com a farda de coronel, na solenidade de comemoração do aniversário da Força Aérea Venezuelana.E deixou claro que está disposto a frear os protestos: "Me declaro em campanha para fazer chegar a lei aos que não aceitam a lei. Não aceitarei o motim, a chantagem."Democracia x libertinagemDepois, com o uniforme de campanha e boina vermelha, endureceu em discurso para os camponeses na Praça Caracas, com nova ameaça: "A partir de hoje, novos acontecimentos ocorrerão na Venezuela. Não vamos aceitar que se confunda democracia com libertinagem." "Querem o conflito? Terão o conflito. Vamos ao contra-ataque revolucionário", insistiu o presidente.Enquanto a Federação de Câmaras da Venezuela, Fedecámaras, pede a abertura de conversação para rever algumas das 49 medidas do governo que alteram profundamente a economia, Chávez tomou o caminho oposto: anunciou que enviará o mais rápido possível ao Congresso uma nova lei de comunicação e informação, que provavelmente criará sanções para os meios de comunicação, na maioria esmagadora contrários ao atual governo. E ainda promulgou, hoje mesmo, a Lei de Terras, mais controversa das 49 mudanças. O presidente marcou para amanhã a promulgação da Lei de Pesca, outro ponto de discórdia entre governo e empresários. Em uma clara tentativa de demonstração de controle das Forças Armadas, Chávez transferiu para Caracas a solenidade de homenagem à aviação militar, comandou pessoalmente as tropas, condecorou altos oficiais e assistiu à apresentação de aviões de guerra, alguns pilotados por militares russos convidados pelo governo venezuelano.SucessoA Fedecámaras comemorou o sucesso do movimento, calculando em mais de 90% a adesão ao Paro Cívico. Já às 8h30 da manhã, o presidente da instituições, Pedro Carmona, anunciava o "amplo êxito" do movimento. "Parece um primeiro de janeiro", disse.Para Carmona, a resistência do governo em dialogar com os empresários significará "o aumento das tensões daqui para frente". "A Venezuela inteira paralisou suas atividades e é a evidência de que o país pede uma retificação de rumos, pede uma democracia participativa, em que todos sejamos atores".Com a radicalização de Chávez, a Assembléia Nacional, o parlamento venezuelano, será a alternativa para a tentativa de abrir um mínimo de conversação com a oposição. Chávez tem a maioria dos deputados e há os que defendem que sejam organizados encontros para ouvir os argumentos do empresariado e dos trabalhadores descontentes. O presidente, porém, não está disposto a dar sinal disposição para rever as 49 novas leis. Ao contrário, optou pela saída de reforçar o comando militar, e não só administrativo, do país.CanalA Fedecámaras, em princípio, resistiu a conversar com os parlamentares. Hoje, Carmona disse que a Assembléia Nacional é "um canal importante de conversação". Os empresários tentarão a anulação das 49 leis no Tribunal Supremo de Justiça, alegando que não foi respeitada a Constituição, uma vez que foi cerceado o direito à informação sobre as leis em discussão.Chávez declarou guerra aos meios de comunicação, acusando-os de publicarem informações falsas sobre o governo e de apenas darem voz aos opositores. Hoje, não circularam os dois maiores jornais do país, El Nacional e El Universal. Emissoras como a Globovision, exclusiva de notícias, suspenderam a programação normal e concentraram-se nas notícias sobre o Paro Cívico, mostrando as ruas desertas, lojas fechadas e ouvindo defensores da manifestação.PobresA capital venezuelana, Caracas, era hoje a cidade dos trabalhadores pobres, camponeses, vendedores ambulantes. Enquanto lojas, escolas, mercados, farmácias, indústrias e instituições privadas permaneceram fechadas durante 12 horas e a classe média refugiou-se em casa, os defensores de Chávez ocuparam o centro da cidade, levados em mais de 50 ônibus, saídos de quase todos os estados. Andavam pelas ruas levando os filhos nos colos, tomavam generosos goles de aguardente, exibiam cartazes de apoio ao presidente e curiosas montagens de representação das elites.Muitos usavam camisetas que identificados seus estados e os movimentos sindicais ou "revolucionários" a que pertencem. Uma jovem construiu duas torres como as do World Trade Center, destruídas em 11 de setembro. No topo de uma, deu o nome de Fedecámaras, e da outra, de CTV, a poderosa Central de Trabalhadores da Venezuela, que aderiu ao Paro Cívico. Já um senhor vindo da localidade de Aragua juntou vários ratos de pelúcia, unidos por uma fita com o nome Fedecámaras. "Se as oligarquias estão contra, nós estamos a favor", gritava um senhor, levando nas mãos um saco plástico com sanduíche de pão de forma e queijo que recebeu em uma das tendas montadas pelo governo para atender os camponeses.Fora do centro, nos bairros mais sofisticados, as ruas estavam complemente desertas. Em uma ou outra varanda, alguns opositores batiam panelas, mas nenhuma passeata foi programada, o que garantiu que não se registrassem conflitos durante o Paro Cívico. As polícias metropolitanas e os 20 mil homens da Guarda Nacional convocados por Chávez para trabalhar na segurança das ruas tiveram pouco trabalho durante as 12 horas da paralisação. Ruas que até mesmo aos domingos ficam lotadas de gente, passeando pelas feiras e pelos centros comerciais que abrem suas portas, faziam parte de um cenário de bairros fantasmas.Sem bolaMuitos vôos e até jogos de futebol foram cancelados. Os hotéis mais sofisticados ficaram vazios, pois muitos hóspedes estrangeiros optaram por deixar a Venezuela antes do Paro Cívico temendo as conseqüências da manifestação. No Caracas Hilton, metade dos funcionários foi mandada para o hotel da Ilha Margarita, onde acontece quarta-feira e depois a Cúpula dos Estados do Caribe. Os poucos hóspedes que chegavam impressionavam-se com a portaria vazia e as várias salas de reuniões desocupadas.Em uma cidade como Caracas, marcada por monumentais engarrafamentos, o trânsito fluiu com a maior tranqüilidade durante todo o dia. Além de alguns ônibus que circularam, os táxis aproveitaram para trabalhar um pouco mais. "Acho que Chávez prometeu muitas coisas que não fez, se contradiz, mas não posso deixar de trabalhar. Isso é para os patrões", dizia o taxista Ramón Torres, justificando sua presença nas ruas.Como o próprio Chávez tinha previsto há alguns dias, o Paro Cívico foi a redenção dos ambulantes. Dezenas deles vendiam refrigerantes, cerveja, biscoitos, livros, maracas, roupas e tudo mais que se possa imaginar pelas ruas do centro. "Cerveja para ouvir o presidente!", anunciava um rapaz que carregava latinhas em uma mochila, pelas quais cobrava 500 bolívares (equivalente a 70 centavos de dólares), jurando que estavam geladas, na tarde quente da capital venezuelana.A esta altura, Chávez falava para o povo, cantava hinos, pedia vaias aos meios de comunicação e às oligarquias. Em determinado momento, o presidente entoou os hinos do país e da revolução. Muitas mulheres e alguns homens choraram olhos vidrados no "comandante", como chamavam os mais aguerridos.

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