Chávez busca opções para reeleição

Presidente venezuelano diz não ter como impedir seu partido de tentar derrubar limite de dois mandatos

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

26 de novembro de 2008 | 00h00

Apesar do avanço da oposição nas eleições regionais de domingo, o presidente Hugo Chávez voltou a falar em aprovar as reeleições ilimitadas na Venezuela. O projeto, que lhe permitiria candidatar-se em 2012, foi rejeitado em referendo, há um ano. Em entrevista a jornalistas estrangeiros, Chávez disse que não buscará aprovar uma nova reforma constitucional, mas seus partidários "têm o direito" de tentar derrubar o limite de dois mandatos para presidente. "Não vou propor outra reforma, mas não posso evitar que outros tentem fazer isso", afirmou Chávez, no poder há uma década. "O povo tem o direito de pedir uma reforma, uma emenda e uma Constituinte - e 2009 seria o ano para se discutir isso. Eles (seus aliados) teriam de colher assinaturas, levá-las à Assembléia Nacional e ir de novo a referendo."Ao defender as reeleições ilimitadas, Chávez citou o presidente brasileiro. "Lula tem 70% de aprovação e tem de ir embora. Por quê?", perguntou. "O próprio Lula diz: criticam o Chávez, mas por que não falam de Tony Blair e Margaret Thatcher?"Apesar de seus adversários terem conquistado as prefeituras das duas maiores cidades venezuelanas e cinco Estados de grande peso populacional e econômico, Chávez não admitiu que eles avançaram. "Essa é uma vitória revolucionária", disse, lembrando que ganhou em 17 Estados. "Foi um discurso contraditório com o de domingo, no qual falou de reconhecimento (da vitória dos adversários)", disse Carlos Ocariz, prefeito eleito de Sucre.Em artigo publicado ontem, o jornal The New York Times exortou Chávez a respeitar a oposição e a aceitar que seu poder é limitado. "A lição das eleições é que os venezuelanos não querem dar ao senhor Chávez mais poder", disse o jornal.A atitude pouco conciliadora indica, segundo analistas, o que pode ser uma tentativa de "neutralizar" o crescimento opositor. Nos últimos anos o presidente tomou medidas para diluir o poder de governos locais. Redistribuiu recursos e criou instâncias administrativas paralelas.A criação dos conselhos comunais - que recebem dinheiro para fazer obras em suas comunidades - é um exemplo desse processo. Outro, é o fato de a polícia de Caracas ter passado, no início do ano, a ser subordinada ao Ministério do Interior. Um decreto de lei aprovado em julho também permite a Chávez indicar funcionários responsáveis por áreas específicas na administração estadual. "Além disso, Chávez pode simplesmente não repassar os recursos para as regiões, como fez antes da eleição", diz o cientista político Omar Noria, da Universidade Simón Bolívar. Mas se a oposição deve saltar obstáculos para garantir a redistribuição mais equilibrada do poder também é verdade que os próximos anos prometem ser difíceis para o presidente. "Chávez quer aprovar as reeleições indefinidas logo, pois sabe que isso será mais difícil quando o país sentir os efeitos da crise internacional e da queda do preço do petróleo", diz Noria. Tendo em vista que o projeto foi rejeitado há tão pouco tempo, é uma aposta arriscada. Outro tiro no escuro são as recentes ameaças de sancionar dois governadores recém-eleitos e a rede de TV Globovisión por anunciar resultados antes da hora. Como a oposição parece ter aprendido, os venezuelanos estão cansados de ameaças e discursos autoritários.

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