Carlos Garcia Rawlins/Reuters
Carlos Garcia Rawlins/Reuters

Chávez comanda à distância a festa do bicentenário da Venezuela

Líder venezuelano acompanha pela internet desfile de independência que deveria marcar o lançamento da candidatura governista para as eleições de 2012

Roberto Lameirinhas, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / CARACAS - Na iminência de uma reforma de gabinete que deve dar indícios dos novos rumos do governo venezuelano, o convalescente presidente Hugo Chávez abriu ontem, do Palácio de Miraflores, a parada militar em comemoração do bicentenário da independência do país, no Paseo de los Próceres, em Caracas. O líder venezuelano acompanhou o desfile de dentro da sede do governo, de onde passou o dia fazendo comentários pela internet.

No discurso inicial, transmitido para um telão instalado no local do desfile, Chávez convocou seus partidários a prepararem-se desde já para o bicentenário da Batalha de Carabobo, que consolidou a separação da Venezuela da Espanha. Essa celebração ocorrerá em 24 de junho de 2021.

Chávez, de 56 anos, chegara na véspera de Cuba, onde havia se submetido a duas cirurgias para a retirada de tumores cancerígenos da "região pélvica". Em meio ao desfile de modernos tanques, helicópteros, caças e baterias de artilharia antiaérea, analistas políticos venezuelanos concentravam-se na expectativa da reunião do Conselho de Ministros - que se realizaria entre ontem à noite e hoje à tarde. Ela poderia dar nova face ao regime chavista.

Uma fonte diplomática que atua em Caracas afirmou ao Estado que Chávez ainda avaliava a possibilidade de expor-se a um desgaste político para encontrar artifícios jurídicos que permitiriam a ele nomear o irmão, Adán Chávez, para a vice-presidência. "Não há nenhum atalho constitucional que dê aval a essa nomeação", declarou ao Estado a ex-presidente do Supremo Tribunal Venezuelano, Cecilia Sosa. "A Constituição proíbe expressamente a escolha de parentes para essa posição do Executivo."

Enquanto se dava como certa a saída de Elías Jaua da vice-presidência, um novo nome surgia com força para substituí-lo entre as especulações: o do atual chanceler, Nicolás Maduro - que iniciou a carreira política como líder de um sindicato de motoristas de ônibus e viu seu prestígio crescer durante a crise diplomática com a Colômbia, a partir de 2008 até o início do ano.

Outro que poderia voltar ao gabinete é o jornalista, ex-chanceler e ex-vice-presidente José Vicente Rangel, um intelectual respeitado na Venezuela e com mais trânsito político no campo da oposição. Jaua e Maduro estavam ontem lado a lado na tribuna de honra do desfile militar, que contava ainda com a presença dos presidentes de Bolívia, Paraguai e Uruguai - respectivamente, Evo Morales, Fernando Lugo e José Mujica - e de praticamente todos os chanceleres latino-americanos.

Encontro. Após o fim do desfile, os três presidentes foram levados ao Palácio de Miraflores para um rápido encontro com Chávez. Ele agradeceu a presença dos três e fez uma saudação especial a Lugo, que se recuperou de câncer linfático após semanas de tratamento no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

Logo ao chegar à Venezuela, Evo tinha afirmado que estava no país para "levar um abraço amigo" a Chávez e criticou "as forças da direita venezuelanas e "do império" (os EUA) que buscam se aproveitar do problema de saúde" do líder bolivariano.

Representante brasileiro, o chanceler Antonio Patriota disse ao Estado que veio a Caracas para reforçar os laços de amizade entre Brasil e Venezuela e transmitir mensagem de solidariedade a Chávez. O ministro afirmou que, em virtude da agenda apertada, não estava prevista uma reunião com o presidente.

A deputada independente María Corina Machado foi atingida no rosto por uma garrafa lançada por um grupo após assistir ao desfile militar em Caracas.

PERFIS

 

Adán Chávez, irmão mais velho de Hugo Chávez

Irmão é mais radical e menos carismático

Frequentemente comparado ao cubano Raúl Castro, o irmão mais velho de Hugo Chávez, Adán, é visto por analistas políticos como um dos possíveis sucessores de Elías Jaua na vice-presidência do país.

Com 58 anos, o irmão "preferido" do presidente é formado em Física e já ocupou diversos cargos no governo.

Atualmente governador de Barinas - reduto político de Chávez - Adán teve uma atuação marcante como ministro da Educação, entre 2007 e 2008, quando tentou instituir uma reforma no currículo das escolas venezuelanas que, segundo opositores, doutrinava estudantes com ideias socialistas.

Mais radical e menos carismático que o presidente, Adán atuou na estruturação do regime. Enquanto Chávez estava em Cuba, seu irmão apareceu como o principal porta-voz em relação à saúde do líder e, citando Ernesto Che Guevara, falou da "luta armada para obter o poder" ao referir-se às eleições de 2012. / NYT e REUTERS

Nicolás Maduro, ministro das Relações Exteriores

Ex-sindicalista, chanceler tem forte influência

Chanceler da Venezuela desde agosto de 2006, o ex-sindicalista Nicolás Maduro foi o representante do governo escolhido para ler o primeiro comunicado sobre a internação de Hugo Chávez em Cuba, no dia 10.

Segundo fontes do governo de Caracas, o ministro cotado para substituir Elías Jaua na vice-presidência foi a Havana em diversas oportunidades durante o tratamento de Chávez. Com sua mulher, a deputada Cilia Flores, Maduro é uma das autoridades mais influentes do regime.

O ministro começou sua carreira política nos anos 70, quando era condutor do metrô de Caracas e lutava por melhores condições para os trabalhadores do setor. Sem formação superior, Maduro participou da campanha que elegeu Chávez, em 1998. Dois anos depois, conquistou seu primeiro mandato como deputado na Assembleia Nacional venezuelana. Em 2005, foi reeleito e chegou a ocupar o cargo de presidente da Casa. / REUTERS

PONTO-CHAVE

Líder volta a publicar no Twitter

Congratulações

"Ó Venezuela, feliz aniversário pátria querida! Ah venezuelanos, venezuelanas, felicidades hoje e para sempre, meus irmãos! Viva Venezuela!"

Bicentenário

"Que paixão pátria transbordada! Que bicentenário! Que povo! Que soldados! Que orgulho de ser soldado do povo de Simón Bolívar!"

Agradecimentos

"Obrigado à Rússia, hoje sim temos uma Força Armada de verdade. Obrigado à China (...) por termos nossa Força Armada bem equipada e treinada!"

Próxima festa

"Agora vamos até 24 de junho de 2021! Ao bicentenário (da Batalha) de Carabobo! Hoje inicia-se essa nova fase (...)! É o retorno supremo!"

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.