Chávez comemora golpe em meio a protestos

Em meio às atividades para comemorar o aniversário da tentativa de golpe de Estado que liderou há uma década e aos protestos da oposição, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, criticou, nesta segunda-feira seus detratores pelos danos que infligem ao país em suas tentativas para derrubá-lo. Em discurso, o mandatário denunciou que grupos opositores e alguns meios de comunicação "se impuseram a tarefa de mentir descaradamente tentando derrubar Chávez". Sustentou que "não vão consegui-lo" e pediu a seus opositores que "retifiquem (as acusações)", por estarem provocando "danos ao país em seu empenho irracional de tirar Chávez (do poder)". O governante venezuelano participou nesta segunda-feira de diversas atividades comemorativas, enquanto seus opositores saíam às ruas vestidos de preto em sinal de luto nacional. Na zona leste de Caracas, onde residem pessoas de classe média e alta, uma caravana de automóveis, em protesto contra as celebrações, provocou um grande congestionamento no trânsito. Um grupo de militares da reserva participou, como forma de protesto, de uma missa na catedral de Caracas em memória dos 30 militares que morreram na tentativa de golpe em 1992. Um grupo de simpatizantes de Chávez se colocou nos arredores da igreja para protestar contra a missa, e policiais formaram um cordão humano para evitar conflitos entre as duas partes. Diante das previsões de possíveis confrontos nas ruas entre os pró e os contra Chávez, cerca de 5.000 agentes da polícia e da Guarda Nacional ocuparam as zonas central e sudoeste da capital venezuelana.Chávez, acompanhado de alguns ex-golpistas, iniciou as celebrações no Panteão Nacional, onde colocou uma coroa de flores diante do monumento a Simón Bolívar. Em seguida, dirigiu-se ao Museu Histórico Militar para render homenagem aos companheiros de farda que tombaram na intentona golpista, prometendo lutar "sem descanso para que sua morte em combate não seja em vão". Atendendo à convocação dos grupos opositores, várias centenas de pessoas saíram nesta segunda-feira às ruas de Caracas vestidas de preto e com emblemas e slogans, lembrando o que consideraram um dia de "luto nacional". Os influentes jornais locais El Universal e El Nacional expressaram em seus editoriais sua rejeição às comemorações de 4 de fevereiro. O El Nacional advertiu ser preciso "impedir sua pretensão (de Chávez) de exercer o poder como se tivesse triunfado em 4 de fevereiro". O El Universal também criticou os atos organizados pelo governo num editorial intitulado "Não há motivo para celebrar". O analista político Fausto Masó qualificou as celebrações como "uma provocação ao confronto" promovida por Chávez, que nos últimos dois meses viu crescer a corrente opositora no país. O apoio popular ao governante era de 30% em dezembro, segundo pesquisas - o que representa uma queda de mais de 40 pontos percentuais em comparação com o apoio que Chávez tinha em fevereiro de 1999, quando assumiu o poder. O cenário político foi conturbado por fortes disputas que o mandatário mantém com grupos de oposição, empresários, sindicatos, meios de comunicação e a Igreja Católica. Ao mesmo tempo, crescem os problemas econômicos em conseqüência da queda dos preços do petróleo, o que propiciou a compra maciça de dólares e obrigou o governo a impor novos impostos para fazer frente ao déficit fiscal, que supera os US$ 8 bilhões. Desconsiderando os questionamentos da oposição, Chávez decretou o 4 de fevereiro como dia de "júbilo nacional", igualando-o ao Dia da Pátria - 19 de abril, em que o país comemora o dia de sua independência, em 1810. À meia-noite de 4 de fevereiro de 1992, Chávez comandou um grupo de militares descontentes em uma tentativa de derrubar o então presidente Carlos Andrés Pérez, que era visto como corrupto e insensível às penúrias da população em meio a um severo programa de ajustes econômicos. A sublevação foi dominada em questão de horas e Chávez se rendeu, esclarecendo que o fazia "no momento". Passou dois anos preso enquanto crescia sua popularidade entre os pobres, que o consideravam um herói. Em 1998 se candidatou à presidência e ganhou as eleições por maioria esmagadora.

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