Chávez contra-ataca e esvazia poder de opositores eleitos

Hospitais, escolas e até canais de TV controlados por regiões são passados, por decreto, para o controle nacional

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

"Não temos medo desses fascistas", afirmou o presidente venezuelano, Hugo Chávez, em seu programa dominical Alô, Presidente!, referindo-se a governadores e prefeitos opositores recém-eleitos. "Preparemo-nos, generais, almirantes, porque os varreremos. Não lhes daremos trégua." O que ele entende por "não dar trégua" não demorou muito para vir à tona: na semana passada, uma série de decretos e medidas trataram de passar o controle de escolas, hospitais, cartórios e até edifícios públicos da prefeitura de Caracas e do populoso Estado de Miranda, agora governados por opositores, para ministérios e órgãos ligados ao governo central. Só na quinta-feira à noite, um decreto fez Miranda perder o controle de 18 hospitais e ambulatórios. Caracas perdeu mais de 90 escolas públicas e 30 hospitais, além da emissora de televisão Ávila TV.Incitados por autoridades ligadas a Chávez, grupos de funcionários públicos também começaram a ameaçar não cooperar com as novas administrações. O líder opositor, Manuel Rosales, novo prefeito de Maracaibo, foi formalmente acusado de corrupção e enriquecimento ilícito e, de quebra, Chávez ainda relançou um projeto rejeitado no referendo sobre a reforma constitucional, em dezembro de 2007: o de reeleições ilimitadas para o presidente. "Não quero passar 2009 discutindo se Chávez é um tirano, se é meio tirano, se é isso ou aquilo", disse o líder venezuelano, pedindo que seus aliados promovessem até fevereiro uma consulta popular sobre uma emenda constitucional que derrube o limite de dois mandatos .Motiva a contra-ofensiva de Chávez o fato de a oposição ter conseguido nas eleições regionais do dia 23 uma chance de crescer no cenário político venezuelano. Opositores venceram nas duas principais cidades - Caracas e Maracaibo - e em cinco Estados que concentram 45% da população e 70% da atividade econômica venezuelana. A conquista do município de Sucre, onde fica o Petare, maior favela do país, também derrubou o mito de que só Chávez pode vencer em lugares pobres. E, apesar de o presidente ter vencido em outros 17 Estados, sua influência acabou relegada a regiões rurais esparsamente povoadas, onde a folha de pagamento e projetos sociais do governo muitas vezes são a única fonte de renda da população."O resultado eleitoral fez Chávez perceber que sua vantagem nas urnas está diminuindo", explica Francine Jácome, diretora do Instituto Venezuelano de Estudos Sociais e Políticos (Ivesp). "Sua resposta é, de um lado, essa iniciativa para tirar poder dos prefeitos e governadores opositores tentando criar para eles um cenário de ingovernabilidade. De outro, a tentativa desesperada de aprovar a reeleição presidencial ilimitada antes que os cortes de gastos sociais inevitáveis nesse cenário de crise econômica global, façam o apoio a tal projeto cair ainda mais."Segundo José Vicente León, diretor do instituto de pesquisas Datanálisis, de Caracas, pesquisas feitas antes do relançamento da campanha pelas reeleições ilimitadas indicavam que tal proposta era apoiada por menos da metade dos venezuelanos que aprovavam Chávez. No total, 57% dos entrevistados diziam apoiar o presidente, mas só 25% aceitam que ele fique no poder por um período maior que o permitido pela atual Carta (até 2012)."No referendo de 2007, a alta abstenção entre chavistas também foi um dos motivos da derrota do projeto de reforma constitucional proposto pelo presidente", lembra León. "É claro que precisamos considerar a possibilidade de Chávez virar essa situação - afinal, ele tem grande capacidade de atrair votos -, mas, com certeza, esse novo referendo será a votação em que o presidente inicia a campanha em maior desvantagem em relação a oposição."

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