Chávez cria ''guerrilha'' contra ''mídia capitalista''

Líder venezuelano recruta adolescentes para contestar informações dos meios de comunicação privados em murais, panfletos, sites e blogs

, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2010 | 00h00

Com a criação do que o presidente venezuelano, Hugo Chávez, chamou de "guerrilhas comunicacionais", grupos de jovens receberam do governo a missão de identificar as "mensagens capitalistas" transmitidas por meios de comunicação privados e "contestá-las" em murais, panfletos, mensagens de celular, blogs, sites e e-mails. Pelo plano chavista, nem mesmo pichações de muros devem ficar sem resposta.

As tais "guerrilhas" incluem adolescentes. Só entre os primeiros integrantes do grupo há 75 estudantes de 13 a 17 anos, recrutados em três colégios municipais. A oposição qualificou a iniciativa de "irresponsável".

"É extremamente grave a decisão do governo de criar a guerrilha comunicacional em instituições educativas. Eles estão utilizando de maneira irresponsável crianças e adolescentes para atos políticos, o que é proibido por lei", disse José Luis Farías, porta-voz da coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática.

Representantes juvenis do grupo Aliança Bravo Povo, também opositor, pediram para a Unicef - organização de proteção à infância e à adolescência ligada à ONU - um pronunciamento sobre a incorporação dos estudantes aos quadros das guerrilhas comunicacionais.

O ministro da Educação venezuelano, Héctor Navarro, explicou em entrevista à emissora oficial Venezuelana de Televisão (VTV) que o objetivo do projeto é que os adolescentes se convertam em ativistas "da verdade" (que, para as autoridades venezuelanas, é sinônimo da versão oficial dos fatos).

"A guerrilha tem várias características: mobilidade, autonomia, versatilidade e comprometimento com os interesses do povo", afirmou Navarro. "Espera-se que os "disparos" que esses grupos produzam sejam de ideias, de propaganda, de resposta à todas essas campanhas dos meios de comunicação."

Império de mídia. Chávez já apresenta dois programas semanais transmitidos para toda a Venezuela - o Alô, Presidente? e o De Repente, Chávez!. Também controla cinco emissoras de TV, uma agência de notícias e dezenas de rádios. Além disso, costuma aparecer nas telinhas a qualquer momento para extensos comunicados em cadeia nacional.

O relacionamento com os meios de comunicação privados é cada vez mais tenso - e diversas organizações internacionais denunciam o cerceamento da liberdade de imprensa na Venezuela.

Em 2007, Chávez recusou-se a renovar a concessão da emissora RCTV, crítica a seu governo, que teve de parar de transmitir em canal aberto e mudar sua sede para os EUA. No ano passado, as operadoras de canais a cabo também foram obrigadas a deixar de colocar no ar os programas da emissora logo depois de a RCTV ter se recusado a veicular as cadeias nacionais.

Hoje, a única emissora crítica a Chávez que ainda transmite na rede aberta (mesmo que para um número limitado de cidades) é a Globovisión. Em março, seu dono, o empresário Guillermo Zuloaga, foi detido por cerca de 8 horas, acusado de ter insultado o governo Chávez durante um Congresso da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP). No encontro, Zuloaga disse que Chávez "mandou chumbo" contra os venezuelanos durante o golpe de Estado orquestrado contra seu governo em 2002. Por isso, está impedido de sair do país.

Restrição

O governo da Colômbia advertiu ontem seus cidadãos sobre "os riscos" de viajar para a Venezuela por causa das recentes prisões de colombianos acusados de espionagem no país vizinho.

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