Chávez deverá receber parentes de guerrilheiros

Para analistas, presidente venezuelano quer mediar conflito colombiano para melhorar sua imagem

Renata Miranda, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2023 | 00h00

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, deverá reunir-se com parentes de guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) por causa das intermediações que está fazendo para ajudar num acordo humanitário colombiano. A informação foi divulgada ontem pela senadora e mediadora do acordo, Piedad Córdoba, em entrevista ao jornal El Tiempo, de Bogotá. "Se alguns são ouvidos, é preciso escutar o outro lado também", afirmou Piedad. Ela foi a responsável pela organização do encontro de segunda-feira de Chávez com parentes de 46 reféns políticos da guerrilha. Entre os 15 parentes que foram a Caracas estava Yolanda Pulecio, mãe da franco-colombiana Ingrid Betancourt, seqüestrada em 2002, quando era candidata à presidência na Colômbia. Chávez pediu que Uribe e as Farc não travem as negociações e procurem ceder um pouco em suas exigências.As Farc querem uma zona desmilitarizada para fazer o intercâmbio humanitário e pedem a libertação de 500 guerrilheiros. Uribe é contra desmilitarizar uma área do país. "Este jogo de zonas livres de militares para fazer acordos acabou", afirmou o presidente colombiano, que chamou os guerrilheiros de "terroristas de Hitler".Ontem, o jornal venezuelano El Universal publicou que o porta-voz das Farc, Raúl Reyes, teria entrado em contato com Chávez logo após a reunião com os parentes de reféns. Segundo a reportagem, o presidente venezuelano se reuniria com Reyes no dia 31, após se encontrar com Uribe. Mas a informação foi desmentida pelo chanceler venezuelano, Nicolás Maduro. "É mentira, até agora não houve nenhum contato", disse ele em visita a Brasília (ler mais no texto acima).Para analistas, Chávez se envolveu no conflito interno da Colômbia para melhorar sua imagem fora da América Latina. "Chávez quer que sua intromissão o projete internacionalmente de modo positivo", afirmou ao Estado, por telefone, o analista venezuelano Alberto Garrido. Ele disse que ainda não se sabe se Chávez entrou em contato com as Farc antes de tornar público seu desejo de mediar o diálogo, mas excluiu uma vinculação entre o grupo e o presidente. O analista ressaltou que a ideologia da guerrilha é diferente da que Chávez tem. "As Farc praticam um tipo de guerrilha mais tradicional, diferente do modelo popular defendido por Chávez."Segundo Garrido, a prioridade do presidente é melhorar sua imagem na Europa - desgastada desde que não renovou a concessão da Rádio Caracas Televisão (RCTV)."Se Chávez conseguir a libertação de Ingrid Betancourt, terá mais apoio europeu."Para o cientista político venezuelano Oscar Reyes, da Universidade Andrés Bello, a intervenção de Chávez é mais um exemplo de sua política externa agressiva. "Na Europa, o governo venezuelano se apresentaria como um mediador humanitário, enquanto no continente americano ele se reafirmaria como um líder da esquerda radical", afirmou.Gabriel Murillo, cientista político da Universidade dos Andes, em Bogotá, acredita que a intervenção de Chávez pode melhorar as relações entre Venezuela e Colômbia - abaladas desde a captura em 2004 do "chanceler" das Farc, Rodrigo Granda, em Caracas. "A atitude de Chávez pode ser benéfica aos dois países porque permite futuros acordos de cooperação política", disse Murillo. Já Garrido assinalou que Chávez e Uribe "são aliados táticos hoje, mas amanhã não sabemos como eles se comportarão".

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