Chávez diz ser alto o risco de novo tumor

Presidente venezuelano admite que lesão pélvica 'muito provavelmente' é maligna

CARACAS, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2012 | 03h07

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, admitiu na terça-feira à noite que há uma grande probabilidade de o novo tumor encontrado em sua região pélvica ser maligno. Ele viajaria ontem para Cuba, onde deverá passar por novos exames nos próximos dias. A nova cirurgia, segundo o líder venezuelano, deve ocorrer em Havana até o fim da semana.

"Ninguém pode dizer, cientificamente falando, que essa nova lesão seja maligna", explicou Chávez em entrevista por telefone ao programa Dando y Dando, da rede de TV estatal VTV. "No entanto, há uma grande probabilidade de que seja, porque está no mesmo local onde estava o tumor grande."

De acordo com Chávez, a cirurgia será feita no mesmo hospital da primeira operação. Em junho, médicos cubanos retiraram um tumor "do tamanho de uma bola de beisebol" de sua região pélvica. A natureza e o órgão afetado pelo tumor não foram divulgados.

"Já está tudo pronto. Lá (em Havana), há mais segurança para esse tipo de operação", declarou o presidente. "São os mesmos equipamentos e os mesmos médicos. Será melhor."

Chávez disse ainda que provavelmente terá de se submeter a sessões de radioterapia. Ele reorganizará sua agenda para atender às recomendações médicas. Segundo ele, antes de embarcar, deixará instruções para os ministros, as Forças Armadas e seu partido para projetos que devem ser conduzidos durante sua ausência.

"Nas próximas semanas, vocês não me verão muito. Dói-me dizer isso, mas é verdade", lamentou Chávez. "Não poderei seguir o mesmo ritmo, que vinha crescendo em dezembro, janeiro e fevereiro."

Recaída. O presidente apareceu em público na terça-feira para desmentir boatos de que seu estado de saúde teria piorado. Segundo Chávez, o anúncio da nova cirurgia seria feito apenas ontem, mas foi antecipado para pôr fim aos rumores que circulavam nas redes sociais.

Esses boatos, que começaram a circular quando Chávez não apresentou seu tradicional programa dominical Alô, Presidente!, ganharam força depois de o jornalista venezuelano Nelson Bocaranda ter publicado em seu blog que ele teria sido operado às pressas no fim de semana em Cuba e seu câncer teria se espalhado para o fígado. O ministro de Comunicação, Andrés Izarra, desmentiu a informação e a atribuiu a uma "guerra suja".

O anúncio da nova cirurgia, feito por Chávez durante uma visita a uma fábrica de tratores em Barinas, seu Estado natal, não foi transmitido em cadeia de rádio e TV, como a maioria de seus discursos. Apesar de desmentir que o câncer tenha se espalhado para o fígado e garantir estar "pronto para a batalha", o presidente disse estar consciente da gravidade da doença e assegurou que o "projeto bolivariano" não depende apenas dele.

"Sou um ser humano. Não sou imortal. Quero viver e lutar até o último segundo de vida que Deus me der", disse o presidente, emocionado. "Mas, independentemente do meu destino pessoal, a revolução está em curso e nada poderá detê-la."

Eleição. Para analistas, a redução das atividades de Chávez pode influenciar a preparação para sua campanha à reeleição, em outubro. O novo tumor foi descoberto uma semana depois da vitória de Henrique Capriles Radonski nas primárias da oposição.

Capriles, governador do Estado de Miranda e adversário do presidente nas urnas em outubro, desejou-lhe sucesso na cirurgia. "A meu adversário, como filho de Deus que sou, desejo uma cirurgia bem-sucedida, uma recuperação rápida e uma vida longa", escreveu o candidato da Mesa de Unidade Democrática (MUD), em sua conta no microblog Twitter.

Para o presidente do instituto de pesquisa Datanálisis, Luís Vicente León, é possível que a nova cirurgia crie um efeito temporário de solidariedade popular ao presidente, assim como ocorreu no ano passado. Desta vez, no entanto, o impacto deve ser menor.

"Chávez deve procurar novas ideias. É possível que troque a força de sua liderança pela simbologia de sua revolução", disse León à agência France Presse. "É possível que aponte alguns potenciais sucessores."

Entre os mais cotados para suceder ao líder bolivariano estão o vice-presidente Elías Jaua - que acumulou algumas funções do presidente após sua primeira cirurgia -, o chanceler Nicolás Maduro, o governador de Barinas e irmão do presidente, Adán Chávez, e o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello. / AFP e AP

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