Chávez e o Irã ameaçam os EUA

Evidências mostram que iranianos estariam explorando urânio clandestinamente em território venezuelano

Jackson Diehl / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2010 | 00h00

Os debates em Washington sobre Hugo Chávez tentam determinar se ele é ou não uma ameaça aos EUA ou um valentão que merece ser ignorado. Uma discussão associada a esta envolve a possibilidade de os venezuelanos desejarem se ver livres de Chávez e os métodos aos quais eles poderiam recorrer para fazê-lo.

Será que as combalidas instituições democráticas do país seriam capazes de removê-lo pacificamente ou é inevitável uma revolução de algum tipo? Barack Obama, como George W. Bush, apostou na democracia. Desde o início, tentou "dialogar" com Chávez, percebendo logo a futilidade da iniciativa. Agora, Obama prefere ignorá-lo.

A democracia não está funcionando. Pesquisas de opinião mostram que Chávez tem o apoio de menos da metade dos venezuelanos e uma parcela ainda maior da população é contra medidas para adotar no país o modelo cubano. Quando a oposição conquistou importantes Estados, em 2008, Chávez fabricou leis retirando poder dos eleitos. Se o Legislativo se colocar em seu caminho, ele deve adotar medidas parecidas para contê-lo.

Enquanto isso, sobre a ameaça de Chávez aos EUA, um de seus principais defensores da tese é o ex-secretário-assistente de Estado Robert Noriega, que acusou o venezuelano de ter se tornado um participante ativo no programa nuclear iraniano. Noriega, conhecido pelas opiniões conservadoras, apresentou a jornalistas cópias de documentos confidenciais do governo da Venezuela e depoimentos de fontes ligadas a Chávez.

As evidências reunidas por ele são intrigantes. Elas envolvem três instalações iranianas localizadas em Roraima, ao sul do Rio Orinoco, em território venezuelano. Uma delas seria uma fábrica de concreto. Outra, uma fábrica de tratores. A terceira, uma mina de ouro. Noriega diz que as três são protegidas por zonas de exclusão aérea e a fábrica de tratores possui um complexo de alta segurança mantido pelo Irã.

A instalação produziu um número baixíssimo de tratores e são poucas as evidências da produção de concreto e ouro. Em dezembro de 2008, a Turquia interceptou 22 contêineres vindos do Irã com destino à fábrica de tratores. Eles continham ácido nítrico e sulfato, materiais usados na fabricação de explosivos.

Todas as instalações iranianas estariam em uma região da Venezuela que contém reservas de urânio. Citando uma suposta fonte do governo Chávez, Noriega alega que o Irã está usando as instalações como disfarce para a mineração e exportação clandestina de urânio. Noriega diz que o material pode ser transportado pelo Orinoco até plataformas na costa venezuelana, onde seria apanhado por navios sem a necessidade de registro portuário. O governo Obama teria demonstrado pouco interesse nas informações, talvez por bons motivos. Inspetores internacionais não encontraram indícios de que o Irã tivesse recebido suprimentos de Caracas.

Chávez tem um extenso currículo de apoio a elefantes brancos industriais. As instalações iranianas podem ser outro caso do tipo. Mas algumas conclusões sobre seu regime são difíceis de evitar. Se Chávez não representa uma ameaça aos EUA, isto decorre do fracasso de suas tentativas nesse sentido. E se a democracia será sua perdição, os democratas precisarão de ajuda. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É EDITORIALISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.