Chávez é sucessor político de Fidel, dizem analistas

O líder cubano Fidel Castro abriu caminho para seu colega venezuelano Hugo Chávez ser seu "sucessor político" em termos internacionais. A opinião é do analista venezuelano Ángel Garrido, autor de vários livros sobre Chávez, e do respeitado professor de Relações Internacionais da Universidade San Andrés, o argentino Juan Gabriel Tokatlian.Para eles, as revoluções cubana, comandada por Fidel, e bolivariana, liderada por Chávez, têm em comum a aversão ideológica aos Estados Unidos, o questionamento do poder de Washington e a relação com países rejeitados pelo governo americano - como foi a antiga União Soviética para Cuba, e como é o Irã, entre outros países do "eixo do mal", para Chávez.Ouvidos pela BBC Brasil, Garrido, que falou pelo telefone de Caracas, e Tokatlian, que vive em Buenos Aires, afirmaram que o petróleo - além da trajetória de cada um - marca a diferença entre o poder dos dois."Chávez não tem o carisma de Fidel, mas tem poder econômico, graças ao recurso estratégico que é o petróleo", disse Tokatlian."Chávez foi eleito democraticamente, mas não tem as quatro décadas de presença política de Fidel", completou. Já Cuba, recordou, tem uma economia primária, baseada na produção de açúcar. Tokatlian afirmou que a imagem de Fidel não é transferível para o presidente venezuelano, já que o líder cubano foi um "imã ideológico" nos anos sessenta e setenta. "Mas, sem dúvida, depois de Fidel será Chávez a imagem mais radical e mais identificada com ele no continente", reconheceu.O professor argentino entende que a ajuda petroleira enviada pelo presidente venezuelano a Cuba foi decisiva para evitar que a ilha "desmoronasse" economicamente. A Venezuela, disse, é muito mais importante para Cuba do que Cuba é para a Venezuela. De pai para filho Em sua última viagem internacional à cidade argentina de Córdoba, antes de ter sido internado, Fidel Castro disse a Hugo Chávez: "Eu lhe escuto com atenção. Sou seu aluno".As declarações foram ouvidas pelos presidentes do Mercosul, reunidos havia quinze dias naquela cidade, junto com Fidel e Chávez.Em muitas outras oportunidades, recordou Ángel Garrido, Fidel disse publicamente que o presidente venezuelano é seu "sucessor"."Fidel vê em Chávez a pessoa que dará continuidade ao seu projeto revolucionário no continente", afirmou Garrido. "Mas ainda falta para Chávez calçar as botas do líder cubano." Para Garrido, um é o pai (Fidel) e o outro (Chávez), o filho político. "Fidel é um dos principais personagens do século 20 e um mito, pela forma que chegou ao poder, pelo estilo de governo, por ter passado mais de quatro décadas na liderança de seu país, e como símbolo da esquerda."Para Garrido, que está terminando um livro sobre Chávez - "As Guerras de Chávez", sobre a relação entre os dois líderes - essa aproximação começou em 1994.Fidel apoiava então Carlos Andrés Perez, presidente Venezuela na época e seu amigo, mas inimigo político de Chávez. Em 1994, o atual presidente venezuelano esteve em Havana, e começou uma "relação silenciosa" entre eles. Em 2002, a "sólida amizade política" dos dois líderes ficou clara quando Fidel defendeu a continuidade de Chávez e rejeitou a "tentativa de golpe", disse Garrido, contra seu governo.Cúpula dos Povos Desde então, nos últimos seis anos, Chávez implementou na Venezuela programas sociais - as chamadas missões - com médicos e esportistas cubanos.Oficialmente, são 30 mil profissionais cubanos trabalhando na Venezuela, mas a oposição diz que esse número chegaria a 50 mil."Como disse Chávez, é o processo de fusão de dois estados revolucionários", observou Garrido. Nestes últimos anos, os dois realizaram muitos comícios juntos nas capitais da Venezuela e de Cuba - onde, na última vez, também incluíram o presidente boliviano, Evo Morales.Em Córdoba, depois da reunião do Mercosul, eles falaram na chamada "Cumbre de los Pueblos" (´Cúpula dos Povos´) - união de diferenças lideranças políticas de esquerda de vários países, capitaneadas por Fidel Castro e Hugo Chávez e com a participação de Morales, entre outros. "É o que chamo de triângulo revolucionário - Fidel Castro, pai de todos, Chávez e Morales - mas com o poder do petróleo e do gás", disse Garrido.Atualmente, a Venezuela exporta cerca de três milhões de barris diários de petróleo, sendo metade deste total aos Estados Unidos, lembrou Garrido. "A Venezuela representa 15% do petróleo dos Estados Unidos, além de realizar políticas solidárias com países latinos, entre outros", disse, em referência aos países que recebem petróleo com facilidades para pagamento.A Venezuela, entende, é fundamental para que o sistema de Fidel Castro seja mantido em Cuba, mesmo sem sua presença no governo.Para Tokatlian, essa é uma "oportunidade histórica" para que a América do Sul ajude a transição cubana, evitando qualquer tipo de pressão americana. "Argentina, Brasil e Chile, o chamado ´ABC´, podem ajudar Cuba a sair adiante?, destacou.

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