Chávez encerra campanha em Caracas sob acusação de uso da máquina estatal

O presidente venezuelano e candidato à reeleição, Hugo Chávez, reuniu ontem uma multidão estimada por seus assessores em 500 mil pessoas na Avenida Bolívar, no centro de Caracas, no ato de encerramento de sua campanha para a votação deste domingo. Ao mesmo tempo, o candidato opositor, Henrique Capriles Radonski, fazia sua última manifestação eleitoral, também numerosa, no oeste do país (mais informações na página A14).

ROBERTO LAMEIRINHAS , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2012 | 03h04

A festa chavista na capital motivou uma série de denúncias da oposição - entre as quais as que envolviam o uso de recursos do Estado para trazer militantes de outras regiões e o constrangimento a funcionários públicos, obrigados por seus chefes a comparecer ao evento de campanha do presidente.

Em Zulia, o dirigente do sindicato dos petroleiros Rafael Zambrano afirmou que trabalhadores da Petróleos de Venezuela (PDVSA) ganharam folga de dois dias para assistir ao comício. Além disso, a estatal petrolífera arcou com o custo do aluguel dos ônibus fretados para o transporte de manifestantes.

A federação dos sindicatos dos petroleiros, de oposição a Chávez, estima que apenas os dias parados dos trabalhadores devem custar aos cofres da PDVSA mais de US$ 2,5 milhões. "O controle de presença é muito rigoroso", declarou Zambrano em entrevista à emissora de TV Globovisión. "Listas são passadas quando os funcionários entram nos ônibus, na chegada a Caracas e no momento de entrega das refeições. A ausência pode causar sanções que vão da suspensão de promoções até a demissão sob qualquer pretexto."

Do palanque governista, o ex-chanceler e ex-vice-presidente José Vicente Rangel qualificou de "rumores e mentiras" as denúncias da oposição. "Aqui, ninguém que veio obrigado. Aqui está a gente que luta por seus direitos e sabe que a pátria não se vende nem se compra", discursou.

Analistas ouvidos pelo Estado consideraram secundárias as denúncias feitas pelos opositores. "O uso de ônibus para facilitar o transporte de manifestantes nunca foi incomum na Venezuela e as denúncias de que a operação é financiada pelos cofres do Estado não são fáceis de provar. Muito mais problemático que isso é o conteúdo do discurso do candidato à reeleição, que vem acirrando a retórica do enfrentamento", afirmou o cientista político Carlos Ramos Ortíz, da consultoria Chance.

Alheios à polêmica, os chavistas começaram a tomar conta da Avenida Bolívar já pela manhã. O normalmente caótico trânsito caraquenho se tornou ainda mais complicado e a autopista que interliga as partes leste e oeste da capital se converteu praticamente em um único e imenso estacionamento.

"Derrotaremos o 'majunche' (o insulto que pode ser traduzido como 'imbecil' e pelo qual os chavistas se referem a Capriles) por nocaute, não podemos deixar que ele acabe com a nossa revolução", gritava uma senhora de meia-idade, totalmente paramentada com os símbolos chavistas: boné, lenço de pescoço e camiseta vermelhos.

Chávez chegou ao palanque meia hora depois de uma fortíssima chuva, que não dispersou a maré humana vermelha. Usando jaqueta preta, cantou o hino nacional sob a chuva, acompanhado pela multidão. "Viva a chuva! Chegou a avalanche bolivariana, compadre!", saudou.

Depois de cantar e demonstrar vigor - apesar do câncer pélvico do qual se trata há mais de um ano -, Chávez voltou a afirmar que o que estará em jogo no domingo "é a independência e a vida da Venezuela". "Fizemos a Venezuela ressuscitar. Não permitiremos agora que liquidem outra vez esse país."

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