Chávez faz ameaças a escolas

Instituição privada que não adotar ideais socialistas será fechada

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2018 | 00h00

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, ameaçou ontem fechar ou expropriar todas as escolas privadas que se negarem a adaptar seu currículo à linha ideológica do governo bolivariano. "A sociedade não pode aceitar que o setor privado faça o que bem entender", afirmou, durante a inauguração de uma escola, no primeiro dia do ano letivo na Venezuela. "Todos deverão subordinar-se à Constituição e ao sistema educativo bolivariano e quem não quiser terá de fechar sua escola. Haverá intervenções, nacionalizações e assumiremos a responsabilidade sobre essas crianças", completou.Segundo o presidente, todas as instituições de ensino do país deverão permitir a visita de inspetores, cujo principal objetivo será verificar se o conteúdo ministrados em sala de aula está de acordo com o "socialismo do século 21". Um novo currículo escolar - "livre dos valores individualistas do sistema de ensino capitalista" - deverá ficar pronto em um ano. Além disso, será determinada a adoção de novos livros didáticos. Nos últimos dois dias, o presidente apresentou-se em três cadeias nacionais de TV, cujo principal tema era a reforma da educação. No total, foram mais de dez horas de discurso, nas quais Chávez leu e criticou textos de livros acadêmicos. De acordo com o ministro da Educação, Adán Chávez - irmão do presidente -, até 2010 todas as escolas do país terão de inserir-se no sistema de educação bolivariano. Hoje, essa rede inclui a maior universidade do país, mais de 4 mil escolas públicas, missões educativas administradas com o auxílio de profissionais cubanos e um sistema de pré-escola para menores de 6 anos - o "Simoncito" (diminutivo de Simón Bolívar).A maior crítica da oposição é que tal sistema confunde educação com doutrina ideológica, além de oferecer cursos de baixa qualidade. "O presidente quer impor um discurso único por meio do sistema educacional e agora que já conseguiu consolidar essa rede de ensino paralela, está investido contra as as instituições privadas", disse ao Estado, por telefone, o sociólogo Amalio Belmonte, membro de uma comissão de professores da Universidade Central da Venezuela (pública, mas independente) para analisar as propostas de reforma do governo. Quando tomou posse, em janeiro, Chávez anunciou que a "educação popular" seria um dos cinco motores de seu movimento socialista. A meta seria usar o sistema educacional para produzir um "novo homem", comprometido com valores revolucionários.Em maio, o presidente anunciou o fim do vestibular para as universidades públicas. "O exame era um incômodo para o presidente porque os alunos do sistema bolivariano de ensino tinham muita dificuldade para passar, o que punha em evidência a precariedade desses colégios", diz Octávio de Lamo, presidente da Câmara Venezuelana de Educação Privada. Para ele, o mais irônico das ameaças é que a maior parte dos funcionários do alto escalão do governo têm filhos estudando em escolas particulares.

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