Chávez fecha fronteira e paralisa comércio

Retaliação venezuelana causa filas de caminhões em postos fronteiriços e ameaça ampliar escassez no país

Ruth Costas, BOGOTÁ, O Estadao de S.Paulo

05 de março de 2008 | 00h00

Quando os 10 mil soldados venezuelanos começaram a chegar à fronteira com a Colômbia, do outro lado da extensa linha que separa os dois países, a tensão já era grande. Impedidos de entrar em território venezuelano por pelo menos três passagens (Paraguachón, San Antonio e Urena), mais de 300 caminhões repletos de mercadorias esperavam, impacientes, que um milagre fizesse os presidentes dos dois países apertarem as mãos novamente - se não por cordialidade, ao menos em nome dos laços econômicos entre seus povos. Os tanques e batalhões enviados pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez, que ao longo do dia foram se enfileirando do lado venezuelano, minguaram as esperanças de que o comércio se normalizasse tão cedo. "Já tomamos algumas medidas (de retaliação), como o fechamento de algumas fronteiras", disse o ministro da Economia, Elias Jaua, explicando o que estava acontecendo na região. "Vamos tentar conseguir os produtos (fornecidos pela Colômbia) de outras nações." A ameaça já havia sido feita por Chávez no ano passado, depois que o presidente colombiano, Álvaro Uribe, suspendeu seu papel como mediador nas negociações com as Farc. Os empresários exportadores e habitantes das regiões fronteiriças são os que mais rapidamente sofrem o impacto do conflito diplomático. Calcula-se que o comércio bilateral chegue a US$ 6 bilhões por ano, dos quais US$ 4,5 bilhões são exportações colombianas. Os colombianos vendem para o vizinho carvão, carros, roupas e alimentos e compram deles chumbo, alumínio, ferro e polietileno. "A suspensão do comércio regular faria o contrabando disparar, porque eles precisam de nossos produtos", disse ao Estado Rafael Mejía, presidente da Sociedade de Agricultores da Colômbia. Saem da Colômbia 30% dos produtos consumidos pelos venezuelanos - o que não deixa dúvida de que os venezuelanos, que já sofrem com uma inflação acelerada e escassez de produtos, também serão prejudicados com a paralisação do comércio entre os dois países."Claro que temos um pouco de medo que o governo venezuelano feche de vez as fronteiras, mas acho que a probabilidade de que isso ocorra é pequena", disse Andrea Gonsálvez, de 30 anos, que se acotovelava com um grupo de pessoas na frente do portão do Consulado da Venezuela em Bogotá, tentando conseguir um visto para visitar a família na província venezuelana de Valência. Na capital colombiana, autoridades tiveram de desmentir rumores de que vôos para Venezuela e Equador seriam cancelados. O clima era de nacionalismo e o apoio a Uribe era imenso. Segundo uma pesquisa do telejornal CM& nas grandes capitais do país, 83% estão de acordo com a ação do governo colombiano que matou, em território equatoriano, o número 2 das Farc, Raúl Reyes.Na Praça Bolívar, no centro, um imenso painel dava as boas-vindas aos quatro reféns da guerrilha libertados na semana passada. "Todos estão fartos das Farc, dos assassinatos, extorsões e seqüestros pelos quais esse grupo é responsável e tornaram a vida de muitos colombianos um pesadelo", disse o microempresário José Rodríguez, profundamente ofendido por Chávez ter homenageado o guerrilheiro morto em seu programa Alô, Presidente. "Mesmo que o governo colombiano matasse Reyes no centro de Caracas, teríamos de apoiá-lo."DISPUTA POR REYESUma seita, um advogado e uma mulher reclamaram o corpo de Reyes. Segundo Pedro Franco, diretor do Instituto de Medicina Legal e Ciências Forenses, uma mulher que se identificou como mulher de Reyes telefonou para perguntar o que precisava para retirar o cadáver.NÚMEROSUSS 6 bi por ano é o volume do comércio bilateral entre Colômbia e Venezuela10 mil soldadosvenezuelanos foram enviados à fronteira por Hugo Chávez

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