Chávez já fala em fracasso de resgate

Pouco antes de novo adiamento de operação na selva colombiana, líder diz que há ameaça de ataque às Farc

Mariana Della Barba, CARACAS, O Estadao de S.Paulo

30 de dezembro de 2007 | 00h00

Após vários adiamentos, a operação organizada por Hugo Chávez para resgatar três reféns em poder da guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) ameaça fracassar, como admitiu o próprio presidente venezuelano. "Se houver atraso de mais três, quatro ou cinco dias pelas mesmas razões de segurança (para os guerrilheiros), essa operação pode ser cancelada e teríamos de pensar em outra", disse Chávez."Dentro e fora da Colômbia há quem aposte no fracasso da operação e o primeiro deles é o governo dos EUA", acusou o presidente venezuelano no sábado à noite. Ontem, o alto comissário colombiano para a paz, Luis Carlos Restrepo, negou que seu país tenha "sofrido pressões por parte de qualquer governo estrangeiro". Se realmente fracassar a alardeada estratégia de Chávez, ele fechará o ano com outra grande derrota. Além de perder o referendo sobre a mudança na Constituição, Chávez ficou com a imagem comprometida no exterior após um bate-boca com o rei da Espanha, Juan Carlos, e ao ser destituído do papel de mediador com as Farc pelo presidente colombiano, Álvaro Uribe, que o acusou de interferir em assuntos internos do país.Ontem, Chávez, seus convidados estrangeiros e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) aguardavam com ansiedade o início da operação de resgate. Todos estavam prontos, menos as Farc. Como na véspera, o governo venezuelano esperou, em vão, que os guerrilheiros passassem as coordenadas do local onde serão entregues a deputada Consuelo González de Perdomo (seqüestrada em 2001), Clara Rojas, assessora da ex-candidata à presidência Ingrid Betancourt, e seu filho Emmanuel, que nasceu no cativeiro há três anos. Pela manhã, a rádio colombiana Caracol chegou a informar que o ex-ministro venezuelano Ramón Rodríguez Chacín, responsável pelo contato com as Farc, já havia recebido as coordenadas. No entanto, o CICV, responsável pelo resgate na selva, desmentiu a informação. Bogotá também autorizou a entrada de outras três aeronaves venezuelanas, que se somaram a outros dois helicópteros MI-17 que já aguardavam no aeroporto de Vanguardia, na cidade colombiana de Villavicencio, escolhida por Chávez como base para a missão que ele batizou de "Operação Emmanuel".O presidente venezuelano tinha dito, no sábado, que possivelmente seriam necessários helicópteros menores para o resgate na selva. Daí a autorização para a entrada de outros dois, modelo Bell 212, além de um avião Falcon 50. Restrepo garantiu que Bogotá não interferiria no resgate e disse que, se necessário, aumentaria o prazo para a conclusão da operação. Na sexta-feira, ele disse que a Colômbia liberava seu espaço aéreo somente até às 18h59 de ontem (21h59 no horário de Brasília).No fim da tarde, todas essas indicações de que se libertariam ontem os reféns foram frustradas. O dia foi de expectativa não apenas para os parentes dos seqüestrados - que aguardavam em Caracas -, mas também para os representantes internacionais convidados por Chávez para avalizar a operação. Enviados de oito países estão desde sábado de prontidão em Villavicencio, a 95 quilômetros de Bogotá. Entre os colombianos estão Restrepo e a senadora Piedad Córdoba, que vem ajudando Chávez na mediação com as Farc. Estão presentes também o ex-presidente argentino Néstor Kirchner e o brasileiro Marco Aurélio Garcia, assessor para assuntos internacionais da Presidência, além de representantes da França, Cuba, Suíça, Bolívia e Equador. O cineasta americano Oliver Stone, que prepara um documentário sobre a América Latina, também integra a comitiva e pretende gravar a operação.De acordo com o plano de Chávez, a "caravana aérea" partirá de Villavicencio junto com delegados do CICV e irá até o ponto informado pelas Farc para resgatar Consuelo, Clara e Emmanuel. Em seguida, os helicópteros devem retornar a Villavicencio para reabastecer, mas não há informações sobre para onde eles iriam depois. Os destinos mais prováveis são a cidade venezuelana de Santo Domingo, na fronteira, ou Caracas. A única certeza até agora é que a operação irá ocorrer durante o dia, já que a Cruz Vermelha não aceita, por razões de segurança, realizar esse tipo de ação após as 17 horas. Em Villavicencio, o movimento de autoridades, jornalistas e parentes de reféns em poder das Farc era intenso. O governo colombiano suspendeu todos os vôos regulares no aeroporto da cidade, que está cercado por forças de segurança. Segundo a agência de notícias France Press, ao menos 350 policiais e soldados revistam todos os veículos autorizados a entrar na área do aeroporto. FRASESHugo ChávezPresidente venezuelano"Se houver atraso de mais de três, quatro ou cinco dias pelas mesmas razões de segurança (para os guerrilheiros), essa operação pode ser cancelada e teríamos de pensar em outra""Dentro e fora da Colômbia há quem aposte pelo fracasso da operação e o primeiro deles é o governo dos EUA. Faz muito tempo que eles usam seu aparato tecnológico, com espiões e aviões, para buscar a desestabilização e a guerra"Luis Carlos RestrepoComissário colombiano para a paz"Não sofremos pressões por parte de nenhum governo estrangeiro em relação a essa missão humanitária"Ramón Rodríguez ChacínEx-ministro venezuelano e coordenador da Operación Emmanuel''''Com as coordenadas em mãos, a operação partirá na primeira luz do dia, para termos tempo de resgatar os reféns"POSSÍVEIS ENTRAVESQuestões de segurança - Os guerrilheiros só passarão as coordenadas para a localização dos reféns quando tiverem certeza de que não serão capturados pelas forças colombianas. As coordenadas serão passadas por rádio, algo que as Farc só farão quando estiverem num lugar seguro, uma vez que o sinal pode ser interceptadoPresença colombiana - Região é fortemente monitorada pelogoverno de Uribe, que mantém mais de 20 mil soldados na área. O comissário de paz da Colômbia, Luis Carlos Restrepo, garantiu que as forças de segurança não interferirão no resgate, mas não há informações de que as ações militares na área tenhamsido suspensasFalta de discrição - Batizado inicialmente de "Operação Transparência" o plano divulgado por Chávez para o resgate pode ter recebido mais publicidade do que seria recomendável para uma ação que envolve informações sensíveis de caráter militar

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