Chávez não afasta suspeitas de dedo dos EUA em golpe

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, não se preocupou, nesta segunda-feira, em afastar as suspeitas que pairam sobre o envolvimento do governo norte-americano no episódio de sua destituição.Durante entrevista coletiva, Chávez foi indagado sobre o que pensava das notícias segundo as quais o embaixador dos Estados Unidos em Caracas, Charles Shapiro, se reuniu duas vezes com o então presidente interino Pedro Carmona, em menos de 36 horas transcorridas entre sua posse, na sexta-feira, e sua renúncia, no sábado. E do fato de que ele seria levado para fora do país num avião americano.Chávez confirmou que viu, na Ilha de la Orchila, no momento em que subia no helicóptero para voltar para o Palácio Miraflores e reassumir o poder, na madrugada deste domingo, um avião privado, de matrícula americana, pronto para decolar.Mas disse que não sabia o que se podia concluir disso. "Estamos avaliando essas coisas", afirmou o presidente. "Elas são tão sensíveis diplomaticamente que não vale a pena tratá-las dessa maneira, aqui, numa entrevista coletiva."Chávez lembrou que, quando Shapiro assumiu a embaixada em Caracas, disse a ele que era preciso tomar cuidado, "porque as pessoas em Washington podem acreditar em mentiras". O instante em que viu o avião norte-americano e embarcou no helicóptero foi uma das passagens de um relato vívido que Chávez fez nesta segunda-feira, do momento em que teve de abandonar o palácio, na noite de quinta para sexta-feira, até sua volta a Miraflores, na madrugada de domingo.O presidente contou que, enquanto fazia seu último pronunciamento em cadeia nacional, para pedir calma, um ajudante de ordens lhe passou um bilhete dizendo que era melhor ele encerrar o discurso, porque estavam disparando contra o palácio, e que, de qualquer maneira, as emissoras de TV não estavam transmitindo. "Não perca seu tempo", recomendou o "muchacho".Chávez ordenou ao inspetor-geral das Forças Armadas, Lucas Rincón Romero, que fosse ao Forte Tiuna para ver o que se passava. "Rincón me ligou de lá, dizendo que eles já estavam brigando por cargos (no novo governo)."Depois de consultar a Constituição, Chávez saiu decidido a abandonar o cargo, mas a não assinar nenhum termo de renúncia. Já em sua cela, no Forte Tiuna, no dia seguinte, duas jovens advogadas militares vieram tomar-lhe o primeiro depoimento. "A primeira coisa que quero lhes dizer é que não renunciei", lembrou Chávez.As jovens não tomaram nota disso e prosseguiram com perguntas. Um coronel que havia aderido ao golpe supervisionava o trabalho das advogadas, que sabiam que o documento não sairia dali se contivesse aquela afirmação. Mais tarde, no entanto, uma delas escreveu em letra miúda, sob sua assinatura, numa cópia do depoimento: "Ele declara que não renunciou." Durante as 48 horas em que esteve detido, Chávez foi transferido cinco vezes.Grandes Acontecimentos InternacionaisESPECIAL VENEZUELA

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.