Chávez nega oportunismo político ao colocar Venezuela no Mercosul

Quatro presidentes anunciaram ontem em Brasília que o Mercosul agora tem cinco integrantes. Questionado sobre o peso da ausência do Paraguai na ampliação, o líder do mais novo membro do bloco, Hugo Chávez, disse que não houve oportunismo político no ingresso venezuelano. O país passou a integrar o grupo só depois da suspensão paraguaia, sob alegação de que o impeachment do presidente Fernando Lugo, há 40 dias, contrariou uma cláusula democrática do bloco.

LISANDRA PARAGUASSU, TÂNIA MONTEIRO, RAFAEL MORAES MOURA, BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2012 | 03h01

Questionado pelo Estado se a Venezuela não havia aproveitado uma brecha para ingressar no Mercosul, Chávez respondeu: "De maneira nenhuma. Suponha que, em um jogo de futebol, suspenderam o Pelé por uma falta e deram-lhe cartão vermelho. E aí o Brasil não pode marcar os gols necessários para ganhar uma partida. E alguém diz, 'Mas o Pelé não jogou'. Bom, o Pelé estava suspenso. O Paraguai está suspenso, não é parte do Mercosul agora", disse.

Chávez disse que lamenta os desdobramentos políticos no Paraguai - que na prática permitiram a associação de Caracas ao bloco, pois o Congresso paraguaio era o único entre os países do Mercosul a vetar a adesão. "Jamais pensamos que o governo constitucional do companheiro Lugo terminaria com um golpe de Estado como o que ocorreu", afirmou. Para o presidente da Venezuela, se alguém o acusar de oportunismo será a "extrema direita do Paraguai". "A Venezuela entrou no Mercosul porque tinha de estar e tem de estar."

Chávez participou por quase duas horas de um encontro fechado com a presidente Dilma Rousseff e seus colegas do Uruguai, José Mujica, e da Argentina, Cristina Kirchner. Eles discutiram os próximos passos da integração venezuelana e a situação paraguaia. Dilma aproveitou para reforçar sua intenção de ampliar o Mercosul - uma ideia que ganhou apoio explícito de José Mujica.

Para o Itamaraty, juridicamente, essa mudança é impossível. Entre os presidentes, no entanto, a impossibilidade não é tão categórica. Em seus discursos, o ingresso venezuelano foi tratado como uma questão de sobrevivência econômica do bloco - dando a entender que ocorreria de qualquer forma, e não é consequência direta da suspensão paraguaia. "O que não cresce, perece. Estamos obrigados a buscar uma incidência maior do que a de hoje", defendeu o presidente uruguaio. "Temos de buscar formas inteligentes de incorporar. Temos de abrir a cabeça, porque quando a coisa está demasiadamente fechada, rígida, cheia de regras, não funciona."

"Há tempos desejamos um Mercosul ampliado em suas fronteiras e com capacidades acrescidas", afirmou Dilma. "Foi com esse propósito que assinamos, em 2006, o Protocolo de Adesão da Venezuela ao Bloco, instrumento que entrará em vigor formalmente no dia 12", completou.

Dilma quer atrair para o bloco especialmente Colômbia, Chile e Peru. Os três trariam mais de US$ 1 trilhão ao Produto Interno Bruto do grupo. Todos têm hoje acordos de livre comércio com os EUA, o que impede sua entrada no Mercosul. "Podemos examinar se podemos criar mecanismos que aprofundem a possibilidade de países que não estão formalmente nas normas do Mercosul possam estar", afirmou o assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia.

Os candidatos hoje a uma vaga no Mercosul são Bolívia, Equador, Suriname e Guiana. Juntos, os quatro acrescentariam apenas US$ 200 bilhões ao PIB do bloco. Dilma gostaria, também, de mercados mais ativos, sem abrir mão do Paraguai.

"O governo brasileiro, assim como os demais países que integram o Mercosul, apresentaram com toda a clareza nossa visão no que se refere à situação no Paraguai. O que moveu a totalidade da América do Sul foi o compromisso inequívoco com a democracia", afirmou. "Nossa perspectiva é que o Paraguai normalize sua situação institucional interna para que possa reaver seus direitos plenos no Mercosul."

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