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Chávez, pátria e patrimônio

Quando morreu em 5 de março, Hugo Chávez provocou muitos depoimentos emocionados, mas nenhum foi tão tocante quanto o de María Gabriela Chávez Colmenares. "Hoje, juro que darei o melhor de mim", disse emocionada a filha predileta do líder venezuelano no enterro. "Cuidaremos de tua pátria e defenderemos seu legado, como nos ensinou."

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2013 | 02h02

Três meses depois, a pátria inspira cuidados, solapada pela inflação e a escassez de quase tudo. O legado da revolução bolivariana, entre os choques e delírios dos acólitos, corre risco de implosão. O presidente Nicolás Maduro afirma ter visto o finado líder no corpo de um pássaro. Um ministro saudou a falta de papel higiênico no mercado como bênção de um país que está comendo mais. Já o patrimônio pessoal de Chávez vai muito bem, obrigado. E é isso que vem despertando atenção da mídia, agitando os tribunais e atiçando uma peleja familiar.

María Gabriela é pivô de uma disputa entre herdeiros digna de enredo de folhetim. De um lado das barricadas está a protagonista, uma morena de 31 anos e "herdeira universal" da fortuna do patriarca. No outro lado, os quatro irmãos, que se julgam roubados pela queridinha do pai e clamam por seu quinhão. Dois deles, Rosa Virginia e Hugo (Huguito) Rafael, são fruto do casamento de Chávez com a professora Nancy Colmenares. A terceira é Rosinés, filha única do segundo casamento, de Chávez com a jornalista Marisabel Rodríguez Oropeza. Para encorpar o script, há ainda a pequena Genesis María, de 8 anos, que é filha de Bexhi Lissette Pérez, a amante que Chávez veio a reconhecer apenas em 2005.

Passado o luto relâmpago, agora vem a batalha da partilha. Os três filhos maiores, e a mãe da quarta, Bexhi Lissette, acusaram María Gabriela de guardar para si toda a herança e movem um enorme processo civil. Até aí, nada de excepcional. O que chama a atenção são as cifras envolvidas e a projeção do patriarca, que fez da luta de ricos contra pobres seu canto popular e modelo da sua revolução para exportação.

Fontes independentes opinam que Chávez tenha morrido remediado. Jerry Brewer, ex-agente da CIA, hoje analista da Criminal Justice International Associates, de Miami, afirma que o presidente venezuelano teria acumulado US$ 1,8 bilhão, fortuna decantada das opacas contas de petróleo.

Se as cifras forem certas, é um espanto. O ex-ditador da República Democrática do Congo (ex-Zaire), Mobutu Sese Seko, embolsou entre US$ 1 bilhão e US$ 5 bilhões, segundo a Transparência Internacional, mas ele governou durante 30 anos. Seu contemporâneo, Tedorin Obiang, demorou 32 anos no poder em Guiné Equatorial para fazer seu butim, de US$ 600 milhões.

Briga de partilha é tão velha quanto o novo mundo. A diferença é que tudo isso se desenrola na Venezuela "revolucionária", garota-propaganda do socialismo do século 21. Enfim, o líder bolivariano não só nasceu pobre, como raramente perdia a oportunidade de demonizar os magnatas e enaltecer os pequenos, como um messias de boina.

Ainda é cedo para afirmar o que dirá a Justiça venezuelana. Chavista roxa, María Gabriela sempre foi a mais fiel da prole. Foi ela que denunciou ao país que seu pai não tinha se demitido, como queriam seus inimigos em 2002, mas tinha sido vítima de um golpe de estado. Esse papel lhe rendeu o apelido "a heroína" de Fidel Castro, e a fama de sucessora natural de Chávez.

Com a despedida apressada pelo câncer, Chávez acabou ungindo Nicolas Maduro seu herdeiro político. Já o patrimônio pessoal ficou por conta de María Gabriela. Chávez sai de cena como sempre atuou, com a casa dividida e tropa em pé de guerra. Que os vivos se entendam.

*MAC MARGOLIS É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA NEWSWEEK, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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