Chávez pede paz depois de mortes em praça de Altamira

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, pediu a paz neste sábado, após um ataque que deixou três mortos e 28 feridos nesta sexta-feira, durante uma manifestação da oposição na Praça Francia, no Bairro de Altamira, leste de Caracas, onde há sete semanas um grupo de militares se mantém em "desobediência" contra o governo, pedindo a renúncia do chefe de Estado. Os líderes da oposição, que desde a segunda-feira fazem uma greve geral para pressionar Chávez a aceitar um referendo sobre sua permanência no poder, culparam o governo pelo "massacre" e convocaram novas ações de protesto. O líder sindical Carlos Ortega, presidente da Confederação dos Trabalhadores da Venezuela (CTV), disse que "Chávez era o maior assassino nascido na Venezuela" e ameaçou estender a paralisação - que entrou neste sábado em seu sexto dia - indefinidamente. A oposição acusa Chávez de ter semeado o ódio e a divisão social na população de 23 milhões de habitantes, com sua retórica esquerdista e de confrontação. Chávez, por sua vez, negou estar por trás do ataque, pediu calma à população e exortou os manifestantes a abandonar a praça em Altamira. Ele também pediu a intervenção do ex-presidente americano Jimmy Carter para reduzir a tensão na Venezuela. "Não podemos aproveitar, por Deus, para usar o derramamento de sangue e a dor para culpar-nos uns aos outros. Não, pelo amor de Deus, não continuemos injetando o ódio nas famílias venezuelanas, nos venezuelanos", disse Chávez. Sete homens foram detidos pela polícia e um deles se responsabilizou pelo ataque a tiros contra a multidão. O pistoleiro, identificado como João Gouveia, português naturalizado venezuelano, disse que seu objetivo era atingir uma equipe do canal de TV Globovisión. "Sim", respondeu Gouveia a um jornalista do canal Venevisión que lhe perguntou se ele havia sido o autor dos disparos. Com o rosto ensangüentado, ele parecia dizer coisas sem nexo ao subir na viatura da polícia. "Me prostituíram, me seqüestraram e politizaram minha residência", disse enquanto era levado para uma delegacia. O prefeito do município de Chacao, o opositor Leopoldo López, informou que Gouveia, um motorista de táxi de 39 anos, desceu de uma motocicleta e inesperadamente começou a disparar contra a multidão, que protestava contra o presidente Hugo Chávez. Entre os outros detidos estava um homem de nacionalidade inglesa. O embaixador venezuelano na Organização dos Estados Americanos (OEA), Jorge Valero, anunciou neste sábado a retomada da mesa de negociação. Representantes do governo e da oposição deveriam começar a discutir às 17 horas locais (19 horas de Brasília) uma solução para a pior crise política no país desde o frustrado golpe de Estado de abril. O secretário-geral da OEA, César Gaviria, conseguiu forçar as duas partes a retomar a mesa de negociação depois do ataque de sexta-feira. As negociações havia sido suspensas por causa da greve geral convocada pela oposição. O primeiro vice-presidente da estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), Jorge Kamkoff, anunciou neste sábado que toda a direção da empresa, coração econômico do país, colocou seu cargo à disposição. A renúncia coletiva exclui o presidente da PDVSA, Alí Rodríguez. Desde esta quinta-feira, a greve geral vem atingindo as vitais atividades da indústria petrolífera, com paralisações parciais da refinação do petróleo e do transporte marítimo. Há três dias nenhum navio petroleiro deixou a Venezuela, comprometendo contratos da PDVSA com o exterior, a maioria com os EUA. A Venezuela é o terceiro maior fornecedor de petróleo dos EUA. A redução do fornecimento de petróleo levou a estatal a declarar "força maior", uma figura legal para proteger-se de ser processada por seus compradores diante de um eventual não cumprimento das entregas. Chávez ordenou a vigilância militar das instalações petrolíferas e a retomada do controle dos navios (11, segundo a oposição) ancorados no Lago Maracaibo, cuja tripulação aderiu à greve. Grupos de opositores amanheceram neste sábado na Praça Francia, convertida em um altar público após o violento ataque dos pistoleiros. O trânsito estava limitado nas proximidades da praça, onde mulheres rezavam pelas vítimas da tragédia da noite anterior. A situação era de tensa calma na capital, onde estavam programadas marchas de simpatizantes e opositores de Chávez. Centenas de "chavistas" se concentravam neste sábado pela manhã no populoso e empobrecido setor El Valle (sul de Caracas) de onde pretendiam marchar ao meio-dia "pela paz e a democracia" até a Praça Bolívar, no centro da capital. Estava prevista a presença de Chávez na marcha. A oposição convocou seus seguidores a concentrar-se à tarde diante da sede da PDVSA, no bairro de Chuao, leste da capital. Dali pretendiam marchar até o setor de Petare, no extremo leste da cidade, na chamada "marcha do silêncio", que homenageará os "mortos da praça de Altamira".

Agencia Estado,

07 Dezembro 2002 | 09h13

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