Chávez prepara retaliação a Bogotá

Um dia após congelar relações diplomáticas, Venezuela estuda quais empresas colombianas seriam expropriadas

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

30 de julho de 2009 | 00h00

O governo da Venezuela está avaliando quais empresas colombianas podem ser expropriadas. O anúncio foi feito ontem pelo vice-presidente venezuelano, Ramón Carrizález, um dia depois de o presidente Hugo Chávez congelar as relações diplomáticas e econômicas com a Colômbia. Carrizález confirmou que haverá uma revisão dos acordos comerciais entre os dois países e a Venezuela buscará outros fornecedores, mas disse que as fronteiras não serão fechadas. O congelamento das relações foi uma retaliação de Chávez por Bogotá ter pedido explicações públicas, na véspera, pelo fato de armas compradas pela Venezuela da Suécia em 1988 terem sido encontradas com o grupo guerrilheiro Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Ontem, Bogotá justificou-se dizendo que pediu a Caracas diversas vezes para controlar o acesso da guerrilha às armas, mas não obteve resposta. A crise explode num momento em que as relações Colômbia-Equador também estão tensas - no dia 17 foi divulgado um vídeo no qual um guerrilheiro afirmaria que as Farc ajudaram a financiar a campanha eleitoral do presidente equatoriano, Rafael Correa. Como forma de mostrar sua isenção, o governo de Correa enviou à Organização dos Estados Americanos (OEA), para sua investigação, um suposto diário de Raúl Reyes, chefe das Farc morto em 2008, que envolve ex-funcionários equatorianos com a guerrilha. O manuscrito menciona três nomes que não fizeram parte do governo Correa e acusa o líder equatoriano de traição."O que realmente incomoda Caracas e Quito não são as acusações sobre as laços com as Farc, mas o acordo militar que a Colômbia está negociando com os EUA e permitirá o uso de bases em seu território", disse ao Estado o colombiano Gabriel Murillo, da Universidade dos Andes. Na semana passada, Chávez ordenou a revisão das relações com a Colômbia por causa desse acordo. Para o venezuelano Carlos Romero, cientista político da Universidade Central da Venezuela, Chávez viu na nova crise diplomática uma oportunidade de ofuscar o fracasso que representou para ele o golpe em Honduras e as dificuldades do presidente deposto, Manuel Zelaya, seu aliado, para voltar ao poder. Segundo a jornalista e cientista política colombiana Maria Jimena Duzán, a divulgação recente do vídeo das Farc sobre Correa e a das armas venezuelanas encontradas com a guerrilha - evidências conhecidas pelos militares colombianos há um bom tempo - "mostram que há na Colômbia grupos interessados em fomentar as tensões com os vizinhos"."Há uma campanha da linha dura colombiana para prejudicar a relação com Caracas e Chávez fez o jogo deles", diz Romero. "(O presidente colombiano Álvaro) Uribe e os esforços para permitir nova reeleição estão entre os que ganham com a crise", emenda Maria Jimena. "Mas se discutir com Chávez pode impulsionar a aprovação de Uribe, romper relações complicaria bastante a situação econômica do país - por isso, apesar das ameaças, os dois lados devem evitar ir muito longe."O secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, pediu que os dois países evitem retaliações comerciais e ofereceu-se para mediar um diálogo. Em Bogotá, a preocupação tomou conta do setor exportador (mais informações nesta página), que em 2008 teve de interromper as vendas para a Venezuela por causa de outra crise. Os empresários da Colômbia esperam que, de novo, as ameaças sejam bravatas - há mais de 20 empresas do país na Venezuela. COM AFP, AP E EFEDESAFIO REGIONAL08/2007 - Chávez assume mediação para soltar reféns11/ 2007 - Colômbia acusa Chávez de intromissão; Caracas congela relações com Bogotá01/ 2008 - Farc entregam duas reféns a Chávez, que critica Uribe03/ 2008 - Chávez envia Exército à fronteira com Colômbia 05/ 2008 - Países retomam relações em cúpula da Unasul 03/2009 - Imprensa acusa Chávez de dar refúgio à guerrilha07/ 2009 - Em reação a acordo da Colômbia com EUA, Chávez ''revisa'' relações com vizinho

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