'Chávez prolongou a vida do castrismo'

Vice-presidente da Sociedade Interamericana de Imprensa, ativista participou de reunião da entidade no México

Entrevista com

GABRIEL MANZANO , ENVIADO ESPECIAL , PUEBLA, MÉXICO, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2013 | 02h07

Na condição de vice-presidente regional da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), a blogueira cubana e colunista do Estado Yoani Sánchez disse em Puebla, no México, onde a entidade realiza sua reunião de meio de ano (mais informações na página A7), que o governo de Raúl Castro "está preocupado" com o impacto que possa ter, em Cuba, a morte do presidente venezuelano Hugo Chávez.

Segundo ela, o governo cubano teme que os subsídios que recebe de Caracas diminuam. Yoani disse ao Estado que considera a ajuda venezuelana "um retrocesso", por ter dado sobrevida ao regime castrista e adiado suas reformas. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O que significa hoje para Cuba a ajuda venezuelana?

O subsídio da Venezuela significou o prolongamento da vida do regime cubano. Não fosse esse apoio, muito provavelmente, o governo de Raúl Castro não teria continuado nos moldes em que continuou. Teria sido obrigado, bem antes, a aprofundar suas reformas econômicas. O subsídio venezuelano foi um retrocesso. Digo isso porque as reformas tinham começado em 1993 e, com a chegada da ajuda de Hugo Chávez, começaram a ser freadas.

A sra. tem ideia do valor total dessa ajuda?

Em Cuba não se divulgam esses dados, mas economistas cubanos no exílio calculam em torno de US$ 10 bilhões por ano. No entanto, esse subsídio não serviu quase nada para melhorar a vida da população. Melhorou um pouco os transportes, há menos cortes de energia, coisas assim, mas o papel vital do subsídio é manter o sistema, as Forcas Armadas, sustentar o discurso ideológico de Cuba no mundo. Por isso, para a cúpula em Havana, manter essa ajuda da Venezuela é vital.

Como a sra. vê o futuro da Venezuela?

O ponto central é que Nicolás Maduro não é Chávez. Ainda que vença as eleições, se vencer, não será a mesma coisa. Ele vai utilizar essa energia post-mortem causada pela memória de Chávez, mas carisma não se herda. Não basta alguém se dizer herdeiro de um morto, o que se quer são resultados. Veja que Raúl Castro não é Fidel, ele não tem essa carta política que o carisma confere. Por isso, há muita polarização à vista na Venezuela, em um momento difícil para o país. Talvez Maduro aumente os decibéis de seu discurso político contra a oposição. Sua estratégia é só defender o que herdou. Capital político herdado não aumenta, tende a se reduzir com o tempo.

Que tipo de reação se percebe em Havana?

Sabemos que eles (os governantes de Cuba) estão preocupados, temendo que essa ajuda diminua. Isso já se percebia em dezembro, com as afirmações de Raúl Castro de que está disposto a negociar com os EUA, uma clara evidência de que eles sentem que a ajuda venezuelana não é tão segura.

As reformas do presidente Raúl Castro podem ajudá-lo a se manter no poder?

Elas estavam na direção correta, da abertura, da flexibilização. O problema é que sua profundidade é mínima - e a velocidade, lentíssima. Raúl permitiu o usufruto da terra e medidas para se criar empresas privadas, mas o essencial é que se trata de reformas para manter o poder, não para abri-lo. O que ele não sabe - ou sabe e não diz - é que, depois de manter por tanto tempo um sistema tão fechado, tão inflexível, qualquer pequena mexida pode conspirar contra o controle. As reformas não são suficientes, mas podem desencadear algo que ele não pode prever.

Com esse novo cenário, a sr. a acha que o presidente americano, Barack Obama, pode se animar a promover alguma aproximação com Cuba?

O que fizerem os EUA será determinante. Ficamos dependentes do que faz ou não faz a Casa Branca. Nossas relações com a Venezuela são por composição. Com os EUA, por contradição. Obama tem a oportunidade de distender um pouco essa diferença política. E o próprio pessoal do exílio está mudando muito. Há apoio a um processo de normalização, mas sem deixar de fora os direitos humanos. Seria fatal se o governo americano aceitasse se sentar para negociar sem precondições. Há que se colocar condições a respeito de direitos humanos, abertura política, abertura aos cidadãos. Sem isso, (essa possível conversa) seria um oxigênio imerecido para o governo cubano.

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