Chávez reassume governo da Venezuela

Em seu primeiro contato com a imprensa nacional e internacional após o fracassado golpe de Estado contra seu governo perpetrado por uma coalizão civil-militar, em um caótico salão ao lado do gabinete presidencial do Palácio Miraflores, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, fez um longo discurso, no qual admitiu que ?não pensava que iria voltar tão rápido? à sede governamental. Antes do pronunciamento, o comando da nação foi-lhe entregue pelo vice-presidente Diosdado Cabello, que assumira provisoriamente na noite de sábado.No discurso de improviso que fez, e que durou cerca de uma hora, ora bem humorado, ora visivelmente emocionado, Chávez demonstrou seu carisma e o porquê de contar com o apoio popular. Contou que estava lavando meias e outras peças pessoais, coisa que não fazia deste os tempos da caserna, e se preparando para banhar-se, quando foi informado de que o helicóptero havia chegado para transportá-lo de volta ao poder.Aparentando um bom aspecto físico, ainda que com alguma dificuldade para caminhar, e trajando roupas civis, uma jaqueta azul e sem sua indefectível boina vermelha, Chávez negou ter assinado uma carta de renúncia, como chegou a ser divulgado no período em que ele esteve afastado do poder. O presidente restituído negou também que tenha sido maltratado durante sua curta detenção, e se preocupou em destacar a relação cordial que manteve com ?os soldados? que o detiveram nas cinco instalações militares pelas quais passou desde a madrugada da sexta-feira. O presidente venezuelano exaltou o respeito à Constituição falou em unidade, em esperança, disse conhecer profundamente o povo venezuelano e elogiou sua coragem de exigir a volta da legalidade e da democracia. Pediu à polícia que não reprima o povo. Afirmou não ter ódio no coração, não querer vingança, mas disse ser necessário tomar algumas medidas contra os líderes golpistas, sempre respeitando a Constituição e os direitos humanos.Afirmou que o povo é o capital mais importante de seu país e disse que estava completamente seguro de que voltaria ao poder pelos braços do povo, que ?não poderia tolerar nenhuma autocracia?. ?O povo unido jamais será vencido", foi o brado que por vezes interrompeu seu discurso. Disse que seu retorno ao poder é a prova de que o povo venezuelano ama a democracia acima de tudo.?O processo revolucionário, democrático e pacífico não será detido por ninguém, pois é a expressão de Deus?, afirmou o mandatário. ?Sinto-me muito feliz de estar novamente aqui e de sentir este amor?. ?Estive afastado fisicamente... incomunicável, não sabia de informação alguma. Ainda assim, sei que a imprensa pôde transmitir esta infinita e gigantesca história que foi escrita pelo povo venezuelano?, sintetizou.Aproveitou a ocasião para anunciar duas medidas que já estavam decididas desde antes da tentativa de golpe. A primeira delas foi comunicar que aceitou o pedido de demissão do presidente da empresa estatal de petróleo, e a segunda é a criação de um Conselho Federal de Governo, que será o epicentro de uma comissão, com participação de todos os setores da vida nacional, para dar impulso a avanços da vida política e econômica nacional e internacional. Este Conselho será instalado na próxima quinta-feira, dia 18 de abril. Por conta disso, conclamou todas as forças políticas, o povo, militares, líderes de partidos, empresários, e os donos dos meios de comunicação de todo o país a refletir sobre as questões prementes da Venezuela. ?Todos cometemos erros, mas todos podemos consertá-los?, disse, ajuntando que há muitas coisas a retificar.Ao final, todos os presentes cantaram o hino nacional venezuelano, com Chávez se esforçando para conter as lágrimas.

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