Chávez reconhece próprios limites

Apesar de vitória em referendo, queda do petróleo e oposição numerosa ainda atrapalham planos do venezuelano

Simon Romero, O Estadao de S.Paulo

21 de fevereiro de 2009 | 00h00

Quando os eleitores aboliram no domingo passado o limite ao número de reeleições a que pode se candidatar o presidente Hugo Chávez, entregaram a ele uma vitória que poderia encorajá-lo a intensificar a aplicação do seu projeto socialista no país. Chávez, porém, tem pela frente grandes obstáculos para a concretização de seu sonho revolucionário, entre os quais a queda dos preços do petróleo e uma oposição numerosa cuja força não parece estar erodindo. Isso até se refletiu no discurso do venezuelano após o anúncio da vitória, que dessa vez se concentrou em temas como o combate à violência e a necessidade de ampliar a eficiência do governo - como se Chávez estivesse reconhecendo as críticas de que foi alvo durante a campanha e os limites a seus planos. "Trata-se de uma vitória até para aqueles que votaram ?não?", disse o presidente, referindo-se à oposição.Segundo Steve Ellner, cientista político da Universidade do Oriente, Chávez estava na realidade querendo sinalizar que, ao menos num futuro imediato, seu governo não pressionará por uma maior radicalização. "A queda no preço do petróleo sem dúvida influencia a opção de Chávez por uma abordagem mais cautelosa", disse.Só o tempo dirá se o líder venezuelano vai moderar seu governo e ser mais conciliador com a oposição. Mas a sua capacidade de se adaptar é indiscutível. E é esse instinto político que tem garantido sua longevidade - motivo de um misto de admiração, perplexidade e medo entre os venezuelanos.Na última década, o boom global do petróleo permitiu a Chávez implementar seus projetos na área social e impulsionou sua popularidade. Desde 2003, quando o venezuelano assumiu o controle da estatal petrolífera PDVSA, a economia cresceu 94,7% ajustados pela inflação, o equivalente a 13,5% anuais, segundo o Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, com sede em Washington.Mas as críticas contra o perigo que representa o controle de Chávez sobre os poderes Judiciário e Legislativo e a burocracia federal também têm sido persistentes nestes últimos anos. Logo após a vitória no referendo, os jornais venezuelanos lembraram um alerta feito pelo fundador da Venezuela e figura de referência de Chávez, Simón Bolívar: "Nada é tão perigoso quanto permitir que o mesmo cidadão permaneça no poder durante muito tempo."REALITY SHOWNa política venezuelana ninguém chega perto da habilidade de Chávez para combinar realpolitik com grosseria. "Ele reinventou o país como uma espécie de reality show", diz Alberto Barrera Tyszka, autor de uma biografia de Chávez. "Adivinhe quem é a estrela?"No discurso de vitória, Chávez tinha motivos de sobra para falar de amenidades, e evitar comentários sobre o preço do petróleo. Só na sexta-feira ele admitiu que a crise global e a queda dessa commodity cria "uma situação muito dura" para a Venezuela. Como observou certa vez o escritor e político Arturo Uslar Pietri, um dos intelectuais venezuelanos mais importantes do século 20, "a Venezuela não é um país - é um país colado a uma indústria".Mas Chávez transformou esta correlação de forças. Ele pôs a indústria do petróleo no centro da sua revolução durante uma década em que o preço desse produto atingiu patamares altíssimos.Os benefícios obtidos com esta prosperidade são evidentes nas ruas de Caracas. Hummers importados podem ser abastecidos com um dos combustíveis mais baratos do mundo - o galão da gasolina custa menos de US$ 0,10. Os "boliburgueses" - como são chamados os que fazem parte da nova burguesia bolivariana - fazem compras em supermercados onde uma caixa de cereal importado custa US$ 43 no câmbio oficial.Mas apesar de a desigualdade sem dúvida persistir no país, Chávez também ajudou os pobres, reduzindo o seu porcentual de 54% da população em 2003 para 26% em 2008, segundo números oficiais. Em troca, ele é reconhecido por muitos como líder insubstituível. "Todos sabem que esse processo de mudança seria colocado em risco sem Chávez", diz George Ciccariello-Maher, que está escrevendo um livro sobre o venezuelano, comentando o desafio que ele enfrenta para encontrar e preparar sucessores.OPOSIÇÃOOs críticos de Chávez são atormentados pela incerteza quanto às transformações que ele ainda pretende implementar na Venezuela. Cerca de 5 milhões de pessoas, mais de 45% do eleitorado de domingo, votaram contra a emenda. E ainda não se sabe como ele vai lidar com estes eleitores depois de uma campanha marcada pela violência e a intimidação.No entanto, com a ameaça de uma crise relacionada ao preço do petróleo, os leais partidários do presidente também estão preocupados com o futuro. A dona de casa Flor Hurtado, conta que comemorou a vitória do presidente no referendo, mas ainda tem demandas no que diz respeito à ação de seu governo. "Queria uma casa própria, pois pago aluguel há 35 anos. Escrevi para Chávez pedindo uma ajuda e, apesar de ainda não ter recebido a resposta, sei que ela virá", diz Flor.Ontem, Chávez chegou a Cuba para reunir-se com o presidente da ilha, Raúl Castro. A visita não havia sido anunciada. TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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