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Chávez segue o script de antecessores populistas

Dez características essenciais dos líderes que se inspiraram em pensadores dos séculos 16 e 17 para formar governos perversos, que não chegam a ditaduras plenas

ENRIQUE KRAUZE, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2012 | 03h07

O moderno populismo latino-americano é uma criação do século 20 e implica o contato direto entre um líder (o caudilho) e "seu" povo.

Figuras da esquerda e da direita reivindicam sua paternidade. O general Juan Domingo Perón, da Argentina, foi um populista por excelência. Ele testemunhou a ascensão do fascismo na Itália e admirava Benito Mussolini a ponto de querer erigir "um monumento em cada esquina" a ele. Nos dias de hoje, o comandante Hugo Chávez é o populista pós-moderno, cujo herói é Fidel Castro. Ele deseja transformar a Venezuela em um exemplo experimental do "novo socialismo".

Os dois extremos são facetas do mesmo fenômeno político, que é identificado não por seu conteúdo ideológico, mas pelo modo como funciona. Aqui estão dez de suas características essenciais:

1. Exaltação do líder carismático. Há sempre um homem (na Argentina de Perón, uma mulher também) que é "escolhido pela providência" e resolverá, uma vez por todas, resolverá os problemas do povo.

2. O populista latino-americano fala constantemente ao público, inflama as paixões e o faz sem limitações ou preliminares. Há 25 séculos, surgiu uma distorção semelhante da verdade na pessoa do "demagogo" (tão distante da democracia quanto o sofisma da filosofia) e se manifestou na ágora, onde os gregos discutiam política; no século 20, o seu lugar é a agorá virtual. Com Mussolini (e Joseph Goebbels), Perón aprendeu a importância política do rádio, que ele e Evita usaram para hipnotizar as massas. Chávez, por sua vez, superou seu mentor Castro na utilização frenética da TV.

3. Os líderes populistas latino-americanos criam sua versão pessoal da verdade. Esses governos interpretam "a voz do povo" e elevam suas interpretações à categoria de verdade oficial. Ao mesmo tempo, desprezam a liberdade de expressão, confundem a crítica legítima com hostilidade militante e procuram menosprezá-la, controlá-la ou silenciá-la. Na Argentina peronista, os jornais oficiais e nacionalistas - um deles abertamente nazista - contavam com generosas subvenções, enquanto a imprensa livre praticamente desapareceu. Na Venezuela de hoje a situação vai na mesma direção: a liberdade de expressão está sob a ameaça de leis cada vez mais restritivas.

4. O líder populista da América Latina não tem paciência com as sutilezas da economia. O Tesouro é seu patrimônio privado. Pode usá-lo em projetos que ele considera importantes ou gloriosos, ou para enriquecimento próprio. Ou pode fazer ambas as coisas, sem se preocupar com o custo. Ele tem uma concepção mágica da economia. Essa ignorância ou falta de análise típica dos governos populistas traduziu-se em desastres dos quais os países levaram décadas para se recuperar.

5. O populista distribui diretamente a riqueza. Esse fato não é necessariamente negativo em si. Mas o populista latino-americano não distribui a riqueza gratuitamente: ele concentra suas contribuições e espera ser pago com a obediência. Cria-se uma falsa ideia de realidade econômica e consagra-se uma cultura de generosidade do governo. No fim, quem paga a dívida? Seguramente não Evita Perón (que lucrou abundantemente e guardou seus milhões em bancos suíços). Na Venezuela (cujo caudilho distribui e redistribui o lucro do petróleo), os efeitos da assistência oficial no estilo de Chávez só serão sentidos de fato no futuro, quando os preços do petróleo despencarem ou o regime levar seus planos ditatoriais às últimas consequências.

6. O populista alimenta o ódio de classe. Os populistas latino-americanos se opõem aos "ricos" (que frequentemente acusam de ser "antinacionalistas"), mas atraem os "empresários patriotas", que financiam o regime. O líder não procura abolir o mercado pela força; ele subordina os seus agentes e os manipula.

7. O moderno populista latino-americano procura mobilizar permanentemente grupos sociais. Ele convoca, organiza e encoraja as massas. A praça pública é o teatro no qual "o Povo" é chamado a aparecer, a demonstrar continuamente o seu poder e a ouvir as invectivas contra as "forças do mal" dentro e fora da sociedade. "O Povo" ao qual o caudilho dirige os seus apelos não é a soma das vontades individuais expressas no voto e representadas por um Parlamento. É uma massa seletiva e vociferante.

8. O populismo latino-americano vilipendia sistematicamente "o inimigo externo". Imune à crítica e alérgico à autoanálise, o regime precisa desviar a atenção para bodes expiatórios que possam ser culpados pelos fracassos. A Argentina peronista reviveu as antigas (e explicáveis) paixões antiamericanas que fervilhavam desde a Guerra Hispano-Americana. Fidel converteu essa paixão na essência do seu regime. Por sua vez, Chávez insiste numa invasão americana que provavelmente só existe em sua imaginação, mas na qual um considerável setor da população venezuelana passou a acreditar.

9. O populismo latino-americano não respeita a ordem legal. Uma vez no poder, caudilhos como Chávez costumam controlar o Congresso e preferir a "Justiça direta". Na realidade, essa Justiça se torna o que ele próprio decreta que deva ser. O Congresso venezuelano e o Judiciário são agora apêndices de Chávez, assim como na Argentina foram sob Juan e Evita Perón, que formalmente eliminaram a imunidade parlamentar e promoveram um expurgo nos tribunais.

10. O populismo latino-americano solapa, domina e controla ou apaga as instituições da democracia liberal. O populismo se opõe ferozmente à imposição de limites ao poder, que considera aristocráticos, oligárquicos e contrários à "vontade popular".

Os motivos da ascensão desses movimentos são variados e complexos. Em primeiro lugar, eles têm raízes profundas em um conceito histórico de "soberania popular", propagado pelos pensadores neoescolásticos dos séculos 16 e 17 por todo o Império Espanhol. Essa corrente exerceu influência decisiva nas guerras de independência de Buenos Aires ao México.

Além disso, esse tipo de populismo tem uma natureza perversamente "moderada" ou "provisória". Nunca se torna plenamente ditatorial ou totalitário e pode alimentar uma ilusão enganosa de um futuro melhor. Ele disfarça os desastres que provoca, adia o exame objetivo de seus atos, submete os críticos, adultera a verdade e degrada o espírito popular.

*BLOOMBERG, ESCREVEU MEXICO: BIOGRAPHY OF POWER REDEEMERS: IDEAS AND POWER IN LATIN AMERICA

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