Chávez silencia em Cuba e amplifica rumores sobre sua saúde na Venezuela

Onda de especulações. Presidente venezuelano adia retorno ao país, previsto para a madrugada de ontem, horas depois de político chavista admitir que líder passou pelo sexto ciclo de radioterapia, uma além das cinco sessões programadas inicialmente

LUIZ RAATZ, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2012 | 03h07

O clima de incerteza política tem aumentado na Venezuela em razão do silêncio oficial sobre o estado de saúde do presidente Hugo Chávez, em Cuba há dez dias para tratar a reincidência de um câncer pélvico. Antes frequentes, telefonemas de Chávez à TV estatal, divulgação de vídeos e fotos pela imprensa oficial, além de suas mensagens no Twitter, rarearam. Seu retorno ao país, esperado para ontem, foi adiado, sem explicações oficiais.

Políticos e analistas ligados à oposição veem um vazio de poder no país e cobram do governo mais transparência na divulgação de dados da doença e a transferência de poderes de Chávez para o vice Elías Jaua.

De acordo com uma fonte ouvida pelo Estado com acesso a um interlocutor chavista, Chávez terá de repousar por quatro a cinco semanas para evitar complicações imunológicas após a última sessão de radioterapia, e, por isso, estaria ausente por mais tempo.

Segundo esse relato, uma das causas da reincidência do câncer pélvico do presidente seria o descumprimento de recomendações médicas feitas após a primeira cirurgia. "Para ele aguentar a campanha, terá de ficar esse período em repouso", disse a fonte. Na quinta-feira, o ex-ministro da Ciência Jesse Chacón disse que Chávez teria concluído sua sexta sessão de radioterapia, uma a mais das cinco previstas.

Alimentados pela longa ausência, blogs e sites na internet amplificavam ontem - ainda que sem explicitar fontes - versões segundo as quais o câncer de Chávez teria afetado o funcionamento de seus pulmões e de que grupos militares pró e contra o presidente estariam se mobilizando para desfechar uma ação no caso de vacância permanente do cargo.

A oposição contesta a internação de Chávez em Cuba sem a transmissão do cargo para Jaua. "A ausência do presidente tem criado muita incerteza política e econômica. E isso ocorre porque o presidente descumpre a Constituição, que exige que o vice-presidente ocupe a presidência em caso de ausência temporária", declarou ao Estado o deputado Alfonso Marquina, da Mesa de Unidade Democrática (MUD). "O problema é que não sabemos neste momento quem governa o país. Não sabemos o quanto o presidente, que passou por cirurgias, está em plenas condições."

Mais cedo, Jaua acusara a oposição de apostar no vazio de poder. "Os majunches (medíocres, apelido criado por Chávez para Capriles) apostam na ausência de Chávez e imaginam um cenário sem ele porque sabem que não podem derrotá-lo nas urnas", disse o vice à TV estatal.

Apesar do discurso oficial do chavismo insistir que o presidente será candidato e se recupera da doença em Cuba, o ministro do Interior Tarek el-Aissami disse ontem que Chávez deve se incorporar "progressivamente" à batalha pela reeleição. "Ele estará conosco à frente da batalha, mas precisamos ajudá-lo", disse El-Aissami em um ato em Táchira.

Para o analista Omar Noria, da Universidade Simón Bolívar, o clima de incerteza política tem aumentado em comparação com outros períodos de ausência do presidente.

"A Venezuela começa a sentir uma ausência prolongada do presidente Chávez e um silêncio que só é preenchido por porta-vozes próximos do chavismo", observou. "Essa ausência aumenta os rumores de que sua doença esteja se agravando."

De acordo com o cientista político Alfredo Jiménez, da Universidade de Los Andes, cresce a perspectiva entre o eleitorado venezuelano de que talvez Chávez não consiga vencer a batalha contra o câncer. "Até pouco tempo atrás, muita gente duvidava que ele estivesse doente. Mas esse silêncio está fazendo as pessoas acreditarem que o câncer é grave", afirmou. "E sem ele não há substitutos fortes." / COM EFE

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