Chávez tenta sair da crise dialogando com oposição

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, começou a articular nos bastidores da crise uma possível saída para a crítica situação política e institucional que enfrenta o país há mais de seis semanas, convidando representantes da oposição para uma reunião cercada de sigilo no ForteTiuna, principal base militar de Caracas, sede do Comando-Geral do Exército e residência do ministro de Defesa.O encontro entre Chávez e Eduardo Fernández, umdos principais líderes dos partidos de oposição e presidente do Copei (Comitê de Organização Política Eleitoral Independente, o tradicional partido democrata-cristão e o maior do país), ocorreu no último sábado à noite.Primeira reuniãoFernández, candidato derrotado à presidência em dezembro de 1998, jamais conversara antes com Chávez. Apesar disso, o principal líder democrata-cristão venezuelano não recusou o convite do presidente feito por intermédio de um amigocomum, informaram assessores muito próximos a Fernández.A Agência Estado tentou contato com Fernández, mas seus assessores disseram queo líder do Copei se encontrava em Maracaibo, no interior do país. "Fernández disse aopresidente que era necessário uma saída eleitoral, pacífica e democrática para a crise",disse um assessor próximo do presidente do Copei, por telefone de Caracas.Na reunião com Chávez no Forte Tiuna estiveram presentes ainda o vice-presidente venezuelano, José Vicente Rangel, e Teodoro Petkoff, conhecido ex-guerrilheiro e ministro na gestão do presidente Rafael Caldera, que transmitiu o cargo para Chávez no início de 1999. Atualmente, Petkoff é editor do jornal Tal Qual.BispoPara testemunhar essa reunião, classificada de "inesperada e surpreendente" pelo próprio Fernández, chegou a ser convidado também o presidente da Conferência Episcopal de Venezuela, monsenhor Baltasar Porras. O assessor do líder oposicionista disse ainda que Fernández desconhecia se o presidente convidara ou não outros representantes da oposição para o encontro de sábado à noite.Mas existem rumores de que o proprietário de um meio de comunicação e o presidente da Ação Democrática (AD), Henry Ramos Allup, tenham recusado o convite. "Compareci ao encontro porque foi o próprio presidente da República que me fez oconvite. Pensei que deveria ir e transmitir a minha opinião sobre o que está ocorrendo naVenezuela. Pior teria sido não aceitar", disse Fernández ao jornal El Nacional.O líder do Copei relatou que a reunião com Chávez fora cordial e franca. Para Fernández, o gesto de Chávez foi "um passo importante" em busca da solução para o país. "Expliquei que a situação da Venezuela era extremamente crítica e que (ele, Chávez) não deveria permitir que continuasse a morrer gente como conseqüência da crise", disse ele ao El Nacional.Consulta eleitoralO dirigente comentou também que disse ao presidente Chávez que não era conveniente a Venezuela continuar paralisada e que seria necessário uma consulta eleitoral de forma imediata. Tanto o Copei como a Ação Democrática, partido do ex-presidente Carlos Andrés Pérez, buscam uma saída para a crise por meio de umaemenda à Constituição para encurtar o mandato presidencial de seis para quatro anos e,com isso, antecipar imediatamente as eleições presidenciais.Em fevereiro, Chávez estará completando quatro anos de mandato. Questionado se, durante o encontro de sábado, o presidente venezuelano teria feito algum comentário sobre essas propostas, o assessor de Fernández afirmou que olíder oposicionista não se sentia autorizado a responder por Chávez. "Acho que ele (opresidente) mesmo pode informar o teor do encontro no momento em que considerar apropriado", afirmou o assessor à Agência Estado.A fonte informou, no entanto, que o presidente Chávez se mostrou interessado no projeto de emenda constitucional, que, para ser aprovada, precisa de pelo menos 83 votos na Assembléia Nacional, ou 15 mil firmas do colégio eleitoral do país. De acordo com essa fonte, os partidos de oposição teriam assegurados pelo menos 79 votos. Chávez discorda de antecipação da eleiçãoEm declarações à Rádio Unión de Caracas, monsenhor Porras disse, no entanto, que o presidente venezuelano não se havia mostrado favorável a antecipar as eleições presidenciais nas circunstâncias atuais. Por isso, Chávez teria convidado setores mais moderados da oposição a buscar outras soluções para sair da crise.Monsenhor Porras assegurou ainda que, no encontro de sábado, Fernández e Petkoff insistiram na saídaeleitoral. Isto é, uma solução muito além do determinado pela Constituição Bolivariana,que prevê um referendo revogatório em agosto. Na entrevista à rádio, monsenhor Porras disse também que as atuais circunstâncias não são as mesmas de dois meses atrás, razão pela qual os partidos deoposição consideravam necessário negociações que levassem a antecipar as eleiçõespresidenciais.Na opinião do monsenhor, o momento na Venezuela é muito complicado, e manter o otimismo, difícil. O assessor de Fernández disse ainda que é possível que o presidente Chávez convide a oposição para uma segunda reunião - "pelo menosele mostrou essa disposição", disse.

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