Chávez vende eletrodomésticos em reta final da campanha eleitoral

Programa do governo venezuelano oferece crédito para compra de geladeiras e fogões

Claudia Jardim, BBC

22 de setembro de 2010 | 12h00

CARACAS - O presidente da Venezuela Hugo Chávez assumiu o papel de "vendedor" de eletrodomésticos com preços "socialistas" em meio à campanha eleitoral para as decisivas eleições legislativas do próximo domingo, quando os venezuelanos decidirão a nova composição do Parlamento, atualmente controlado por maioria governista.

 

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"Minha casa bem equipada" é o novo programa do governo venezuelano para compra a crédito de geladeiras, fogões, microondas, aparelhos de ar-condicionado e máquinas de lavar roupa, com prazo de até 36 meses para o pagamento.

"Estou me metendo a vendedor. Vendedor do socialismo para derrotar os vendedores do capitalismo", afirmou Chávez, ao anunciar o lançamento do programa de compra a crédito que promete "preços solidários". "Estes mecanismos não são apenas para abastecer bens e serviços baratos e bons, mas também para protegê-los do roubo e da avareza do capitalismo", disse.

Consumismo

A propaganda de Chávez, que critica reiteradamente o "consumismo", funcionou. Em cinco dias, os eletrodomésticos que estavam disponíveis no mercado Bicentenário, no leste de Caracas, já estavam esgotados.

De acordo com uma funcionária, somente no fim de semana foram vendidos 2 mil pacotes de três produtos - geladeira, fogão e máquina de lavar roupas - por um custo de 3 mil bolívares (equivalente a R$ 1,2 mil).

O governo vende o pacote mais barato, mas também é possível comprar as peças separadamente. O fogão sozinho custa 878 bolívares (R$ 351), a geladeira 1,897 bolívares (R$ 758) e a máquina de lavar 1,123 bolívares (R$ 449). Ao lado desses eletrodomésticos, importados da China, estavam produtos de outras marcas, com preços entre 50% e 150% mais caros.

"Com esse dinheiro só dava para comprar um fogão. Agora, vou levar tudo", comentou com entusiasmo a vendedora Celimar López. Simpatizante do presidente Chávez, ela disse não acreditar que o motivo do lançamento deste programa, na reta final da campanha, tenha motivação eleitoral. "A oposição critica tudo que o presidente faz, mas não nos favoreceu em nada quando estavam no governo. E vão perder de novo no domingo", afirmou López.

Outro cliente desconfiava da qualidade dos produtos chineses. "É barato porque é chinês, vai saber se isso presta?", afirmou o pintor Carlos Contreras, que decidiu não se arriscar.

A compra ainda é limitada e burocrática. Quem tiver dinheiro e quiser comprar os produtos à vista, no entanto, não pode. A única opção de compra é no crediário, com juros de 16%, inferior à inflação anual de 30% e à média da taxa de juros cobrada pelos bancos venezuelanos, que gira em torno de 19% a 27%.

Com uma economia que continua baseada na importação de produtos de bens e serviços que são financiados pela renda petroleira, a nova estratégia de vendas do governo é resultado da compra de mais de 300 mil eletrodomésticos da empresa chinesa Haier, por um total de US$ 72 milhões. 

Eleições

As últimas pesquisas de opinião apontam que o governo pode ganhar a maioria das cadeiras do Parlamento, porém, não está claro se o chavismo conseguirá alcançar a maioria qualificada, equivalente a mais de 110 vagas, número que permitiria à base governista continuar no controle legislativo.

Para tentar angariar votos, Chávez tem percorrido todo o país em caravanas que são seguidas por milhares de simpatizantes. Nesta terça-feira, durante comício no estado fronteiriço de Táchira, cujo governador é opositor ao governo, Chávez voltou a afirmar que nas eleições legislativas estão em jogo a sua reeleição presidencial em 2012 e a continuidade da revolução bolivariana.

"Imaginem-se que um esquálido (opositor) voltasse a governar em Miraflores (sede do governo)? Tomariam de volta tudo o que a revolução deu para vocês, coisa que não é nenhum favor do governo e sim um direito do povo, de viver com dignidade. Por isso, enquanto Chávez for presidente, continuarei trabalhando sem descanso com os deputados da revolução".

 

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