Chávez vive o amor e o ódio dos venezuelanos

Uma parte da sociedade civil que levou Hugo Chávez ao poder em 1998 se rebelou no dia 11 de abril deste ano, apoiada pelo Exército, para tirá-lo da presidência. Mas, 48 horas depois, Chávez, que prometeu acabar com 40 anos de corrupção, voltou a assumir o comando da Venezuela graças ao apoio dos militares e das classes mais humildes e pobres a seu governo. Sua queda, mesmo que por algumas horas, provocou desequilíbrios no mercado internacional de petróleo, a principal fonte de riqueza do país - quinto maior produtor do planeta e detentor da segunda maior companhia estatal do setor. As diferenças entre o governo e grande parte da direção da Petróleos de Venezuela (PDVSA), somada a uma greve (parcial) que já dura três semanas, desencadeou uma nova crise política e institucional na Venezuela, onde metade dos 23 milhões de habitantes vive da economia informal. Desde então, o governo do presidente Chávez enfrenta a raiva dos "poderosos" e o clamor e "adoração" do povo. O presidente venezuelano, que dorme em média apenas cinco horas por dia, recebeu dois jornalistas brasileiros em seu despacho no Palácio de Miraflores (sede do governo) na madrugada de sexta-feira, três horas depois da hora marcada. Durante pouco mais de uma hora, Chávez fumou dois cigarros da marca Belmont, uma das mais populares no país, degustou um pedaço de bolo com café e respondeu com extrema tranqüilidade e serenidade a uma bateria de Perguntas. Em Miraflores, o presidente mantém um dormitório para repousar, nunca antes da meia noite. Nas três últimas semanas, principalmente nos dias em que a tensão mostrou a sua cara com as crescentes manifestações da oposição - que quer eleições antecipadas ou derrubá-lo da presidência -, as ruas que cercam a sede do Executivo, uma construção do século 19, no centro de Caracas, são devidamente protegidas com barreiras de arame farpado e custodiadas por soldados do Exército. Veja a seguir a entrevista concedida a dois jornais paulistas: Pergunta - O senhor ganhou todas as consultas populares nos últimos três ou quatro anos. Por que não fazer ou eleição ou o referendo antecipado para distender a situação? Chávez - Olha (tira do bolso um exemplar em miniatura da Constituição Bolivariana), tudo está aqui. Todo país democrático que se respeite tem uma Carta Magna. Quanto custou esta Constituição? Anos de luta para nos trazer um projeto nacional. Aqui há uma série de normas que têm de ser assumidas por todos. É a única forma de viver na democracia. Não se pode viver na democracia com chantagens ou com ameaças de colocar um revólver na fronte e dizer: convoque eleições. A simples idéia de chantagem na democracia é inaceitável. Esta Constituição é a única no Continente que prevê, na metade do mandato (do presidente), um referendo revogatório para dar ao povo o poder de decidir se o eleito esteve ou não à altura das expectativas. Pergunta - Presidente, existe alguma possibilidade, mesmo que mínima, de fazer uma emenda à Constituição que permita antecipar as eleições? Chávez - Essa possibilidade a dá a Constituição, sempre e quando se cumpram os termos do mandato constitucional. O uso e abuso dos princípios democráticos, da liberdade de expressão e de seu poderio econômico para fazer chantagem à sociedade e ao governo, exigindo a inclusão de uma emenda, já não é democracia, é terrorismo. Pergunta - Mas já há uma proposta de emenda, não é? Chávez - Um grupo de deputados na Assembléia Nacional já introduziu um anteprojeto que precisa cumprir uma série de processos. Se a Assembléia aprovar o projeto por maioria simples será necessário então um referendo nacional. O povo é quem deve dizer sim à proposta de emenda. Por isso, tudo isso é possível, desde que se cumpra o mandato constitucional. Nenhum desses caminhos está fechado e foi isso que eu disse à oposição. Pergunta - Se seguirem todo esse caminho constitucional que o senhor diz ser necessário, o senhor seria candidato? Chávez - É uma possibilidade Pergunta - E é uma possibilidade grande? Chávez - As pesquisas que menos me favorecem, normalmente conduzidas pela oposição, as mesmas que me davam 8% quando tinha porcentual maior nas últimas eleições, indicam uns 30%. Já os meus concorrentes potenciais mais próximos têm no máximo 12% ou 15%. Se esse cenário se der, é muito provável que eu seja candidato presidencial. Pergunta - Supondo que esses 30% sejam apenas aproximadas da realidade, não mostra uma queda significativa em relação aos votos de apoio que o senhor obteve nas últimas eleições? Chávez - Bom, vocês estão dando esses 30% como um fato consumado. Pergunta - Mesmo que seja mais do que isso, não significa ter perdido apoio? Chávez - Vocês sabem que o exercício do poder desgasta. Mais ainda quando o povo, ao ligar a televisão, vê, desde que amanhece até que anoitece, uma campanha sórdida contra mim, como nunca antes vista na história do país. Apesar disso, tomando como verdade essas pesquisas que me dão 30%, ainda estou na frente, depois de quatro anos de governo. Pergunta - Mesmo assim, o senhor reconhece então que perdeu apoio popular? Chávez - Sim, reconheço. Mas o que temos aí é uma base sólida com um alto nível de organização e consciência que antes não existia. Um apoio de 30% hoje, durante um processo eleitoral, pode perfeitamente chegar a uns 50%. Pergunta - Por que a oposição, a seu ver, tem essa pressa em adiantar as datas e afastá-lo do poder? Chávez - O fundo da questão é que aqui está em marcha um projeto transformador, que começamos a aplicar. Um projeto de revolução democrática, no âmbito político, econômico e social. Sobretudo no âmbito sócio-econômico. Trata-se de mudar um modelo econômico selvagem que converteu este país em um país rico habitado por um povo pobre e uma minoria privilegiada. Isso temos de mudar, não só na Venezuela mas em toda a América Latina. Não é viável o modelo que está em marcha. Durante um século ou mais foi aplicado um modelo excludente, selvagem, desigual, que nos levou a um abismo. É o continente com maior grau de desigualdade em todo o globo. Pergunta - Mas, em um dado momento, essas pessoas o apoiaram, inclusive Gustavo Cisneros, que é dono do Canal 4. O que pode tê-los levado a ficar contra o senhor? Chávez - Cheguei aqui pela vontade do povo pobre e das classes médias. Pode ter havido um apoio, entre aspas, circunstancial, de uma pessoa que pensou subir ao barco, imaginando que, ´se não podes vencer alguém, una-se a ele´. Uma vez, o representante de um desses meios endiabrados chegou a escrever em um desses jornais, desses mesmos de hoje, que ´há exemplos na História de que se pode amansar o bicho´. E citava alguns casos de amansamento de bichos. Mas este bicho (apontando para ele próprio) não se deixa amansar. Pergunta - Dói ou incomoda que o chamem de ditador, de assassino o tempo todo na televisão? Chávez - Não, não me incomoda. Estou vacinado contra isso. Pergunta - O senhor tentou abrir a caixa preta que há na Petróleos de Venezuela (PDVSA)? Chávez - Fizemos várias tentativas. Conseguimos algumas pequenas mudanças. Mas essa tecnoburocracia que se foi consolidando durante muitos anos desenvolveu uma grande capacidade de manobra de manejo técnico, de ocultação de cifras e da verdadeira realidade, de forma tal que nunca pudemos abri-la. Não obstante, começando no ano passado, removi a direção e nomeei uma diretoria nova, que começou a descobrir coisas. Então, começaram a falar de uma greve petrolífera e ativaram a greve em abril, junto com o golpe. Só não a levaram às últimas consequências porque conseguiram seu objetivo, que era tirar-me daqui por 47 horas. Parte dessa tecnocracia petrolífera tem conexões no estrangeiro e mantém a idéia de privatizar a companhia, a galinha dos ovos de ouro. Esse é o tema de fundo. Pergunta - O senhor tem em mente alguma ação imediata para resolver essa paralisação que está provocando graves prejuízos à economia do país? Chávez - Estamos tomando uma série de medidas, desde a reestruturação da companhia a questões técnicas nas instalações e nas sedes administrativas. Apesar de a oposição, que dominava a empresa quase em 100%, ter desestabilizado a companhia, não conseguiram paralisá-la totalmente. Provocaram grandes prejuízos , mas ainda estamos em pé. Todos os dias estamos recuperando espaço. As refinarias do oriente do país já estão operando em cerca de 80%, e a produção de gás, que estava ameaçada, já está em mais de 50%. Pergunta - E o abastecimento de gasolina? Chávez - Ativamos mecanismos de emergência para importar combustíveis. Pedimos à Petrobras estudos para ampliar a venda de gasolina. Também pedimos isso à Colômbia. Chegaram também ofertas de outros países, como da Rússia, por exemplo, que trará petroleiros para transportar petróleo a qualquer parte do mundo. Pergunta - É verdade que os salários de alguns executivos que estão em greve chegam a US$ 25 mil ou US$ 30 mil? Chávez - Não sei se chegam a isso. Não sei se é tanto assim. Mas os salários de alguns gerentes que estão em greve, os quais começaram a ser demitidos, são astronômicos. Cerca de 15 milhões de bolívares por mês (aproximadamente 12 mil dólares ao câmbio de hoje). Pergunta - Quanto ganha o presidente da Venezuela? Chávez - 800 mil bolívares (640 dólares) e é suficiente. Além disso, parte vai como ajuda para crianças pobres. Pergunta - O senhor vai cumprir quatro anos de governo. Faria alguma coisa diferente do que fez até agora? Chávez - Certamente sim. Mas no estratégico, não. Eu disse, na campanha eleitoral, que iria para Miraflores e convocaria o povo a um referendo para chegar a uma Assembléia Constituinte como único caminho pacífico para sair de uma crise que já era terminal. A Venezuela entrara em uma espécie de torvelinho desde os anos 80. Uma crise que foi, primeiro, moral. Uma corrupção desatinada, presidentes que aqui estiveram e saíram milionários. Vejam onde estão Carlos Andrés Pérez e Jaime Lusinchi (ex-presidentes, ambos acusados de corrupção), e suas amantes, fazendo negócios, comprando armas. Um líder do partido Ação Democrática (de Pérez, o maior do país até a ascensão de Chávez) chegou a dizer uma vez que, na Venezuela, não há razão para não roubar. Pergunta - No Chile de Salvador Allende, seus partidários diziam às vezes, que "este governo pode ser um governo de merda, mas é MEU governo". Pode estar ocorrendo algo assim na Venezuela? Chávez - Seria uma falta de respeito ao povo, que é consciente e sabe o que está ocorrendo. Convido vocês a irem aonde quiserem e perguntarem às pessoas se este é um governo de merda e deixem que eles digam. Pergunta - Em recente entrevista, o vice-presidente, José Vicente Rangel, declarou que ele teme por um magnicídio. O senhor teme isso também? Chávez - Aqui tem gente da oposição tão enlouquecida que chegaram inclusive a dizer publicamente que a solução seria matar o presidente. Descobrimos vários planos nesse sentido. Um deles, recentemente, quando regressava da Europa, previa o disparo de um foguete no avião presidencial antes de aterrissar. Mas descobrimos a tempo e decidimos aterrissar em outro local. Esse foi o mais próximo. Agora, isso de ter medo, temor, não. Não sou super-homem, mas me aferrei a Deus, sou cristão. Hoje me cuido mais do que antes e incrementei o esquema de segurança. Mas não tenho medo.

Agencia Estado,

21 Dezembro 2002 | 20h27

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.