Matias DELACROIX / AFP
Matias DELACROIX / AFP

Chavismo indicia o opositor Guaidó por suposto envolvimento com apagão

Mais cedo, serviço secreto venezuelano prendeu jornalista também acusado de sabotagem; nenhuma evidência foi apresentada pelo governo

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2019 | 14h38

Ainda sem solucionar o blecaute que deixou a maior parte da Venezuela às escuras desde a semana passada, o governo do presidente Nicolás Maduro indiciou nesta terça-feira o líder opositor Juan Guaidó por “sabotagem” do sistema elétrico, sem apresentar provas. O chavismo também prendeu ao menos um jornalista crítico ao governo e tentou relacioná-lo ao apagão, em meio a ameaças de novas sanções dos Estados Unidos. A Venezuela sofre a seis dias com os efeitos de um megablecaute que já provocou falta d’água, saques e colapso no sistema de saúde

O indiciamento de Guaidó foi anunciado pelo procurador-geral da República Tarek William Saab. Outras autoridades chavistas tentaram vinculá-lo, sem provas, ao apagão, que nesta terça-feira entrou no seu sexto dia com relatos de saques na cidade de Maracaibo, a segunda maior da Venezuela. 

Guaidó já responde a um processo de incitação à violência, mas o chavismo não agiu contra ele nem quando o presidente da Assembleia desafiou uma proibição de saída do país, em virtude das ameaças da Casa Branca de que haveria “consequências” se o governo prendesse o líder opositor, que se declarou presidente interino do país em janeiro. 

Logo após o indiciamento, Guaidó convocou seus partidários às ruas para protestar contra Maduro. “Hoje, mais uma vez, a Venezuela está nas ruas para exigir a volta da democracia”, disse. 

Ainda nesta terça-feira, o enviado dos Estados Unidos para a Venezuela, Elliot Abrams, afirmou que novas sanções pesadas contra o país devem ser anunciadas nos próximos dias, até mesmo contra o setor financeiro venezuelano. “Se Guaidó for preso, os Estados Unidos atuarão com rapidez”, afirmou. 

Segundo o ministro da Informação venezuelano, Jorge Rodríguez, a rede elétrica está quase restabelecida e o fornecimento de água será normalizado. Caracas começou a sofrer com a falta d’água na segunda-feira, quando o equipamento que bombeia água dos mananciais para a cidade parou de funcionar pela falta de energia. Ontem, diversos moradores tiveram de caminhar até o Monte Ávila, que circunda a cidade, em busca de nascentes de água potável para encher galões. 

 Pela manhã, o Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin) prendeu o jornalista venezuelano Luis Carlos Diaz e fez buscas em sua casa, depois de o líder chavista Diosdado Cabello tê-lo acusado de participar da suposta sabotagem. É o terceiro caso em menos de um mês de prisão de jornalistas no país, que se soma às deportações dos repórteres americanos Cody Weddle e Jorge Ramos. 

Diaz foi preso quando voltava para casa de bicicleta da Rádio Unión, onde trabalha e mantinha um programa matinal com críticas a Maduro que foi censurado há duas semanas, segundo o Sindicato Nacional de Trabalhadores de Imprensa (SNTP). Ele foi levado para o Helicóide, a sede do Sebin e, de acordo com fontes próximas à família, ainda não tinha tido acesso a um advogado nem a parentes até a noite da terça-feira. A mulher dele, Naky Soto, sofre de câncer. 

“Não há nenhuma informação sobre seu paradeiro”, disse ao Estado um amigo da família. “Houve boatos de que seria libertado, que não se confirmaram.”

Segundo Cabello, Diaz seria um “hacker” que teria ajudado a derrubar as turbinas da Hidrelétrica de Guri, construída em 1978 e a segunda maior da América Latina. O chavista não apresentou nenhuma evidência da acusação. Em seu programa de rádio, Diaz tecia críticas diárias ao chavismo. Procurado, o Ministério das Comunicações da Venezuela não retornou os contatos.

Uma reportagem publicada pelo jornal The New York Times, citando funcionários da estatal Corpoelec, atribuiu o apagão a uma falha na hidrelétrica de Guri e à inépcia dos funcionários chavistas em conseguir religar as turbinas da usina. / LUIZ RAATZ, COM BLOOMBERG, AFP e EFE 

 

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