Chavismo atribui a 'terroristas' incêndio em sede de ministério

Edifício que abrigava a pasta da Habitação foi queimado na terça-feira, 30 estudantes são presos por 'protestos violentos'

DENISE CHRISPIM MARIN , ENVIADA ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2014 | 09h06

Após o discurso no Congresso brasileiro da deputada da oposição venezuelana María Corina Machado, cassada há dez dias, o governo de Nicolás Maduro atribuiu ontem a "terroristas" seguidores da parlamentar um incêndio na sede do Ministério de Habitação na terça-feira.

Segundo o ministro do Interior e de Justiça, Miguel Rodríguez Torres, cerca de 30 estudantes foram presos acusados de praticar protestos violentos em Caracas. Entre eles, uma jovem de 16 anos que teria consigo três coquetéis Molotov "altamente mortais" e um líder de barricada procurado pela Interpol.

"Esses são os instrumentos da marcha pacífica dos opositores", afirmou Rodríguez, ministro do governo destacado para rebater as acusações da oposição de desrespeito aos direitos humanos e de reação desproporcionalmente violenta das forças de segurança aos protestos e para acusar os opositores de envolvimento com a criminalidade.

Em discurso transmitido pela TV, Rodríguez detalhou a operação de captura de um dos supostos líderes das barricadas de San Cristóbal, no Estado de Táchira, onde os protestos começaram em fevereiro. Seria Gabriel Alejandro Reyes Bentrán, procurado pela Interpol por narcotráfico e delinquência internacional.

O ministro acusou participantes de manifestações da oposição de receberem 5 mil bolívares semanais, pagos por um "militante do Vontade Popular", partido da oposição radical, aliado ao Vente Venezuelanos, de María Corina. Ambos os partidos pedem a saída de Maduro da presidência. "O que mostra isso? Que são mercenários. Há fatos que ressaltam o caráter terrorista das ações que estão executando esses senhores pagos", disse o ministro Rodríguez.

A resposta da oposição foi a convocação de uma nova marcha para amanhã, cujo destino final é o Palácio de Justiça, em Caracas, para pedir a libertação imediata de Leopoldo López, líder do Vontade Popular, preso desde o dia 18 de fevereiro. Vence amanhã o prazo máximo de prisão preventiva de López, de 45 dias, pelos crimes de convocar a população à rebeldia civil e de traição à Pátria. Até ontem, seus advogados não haviam recebido resposta sobre sua liberação.

Esse será o primeiro protesto na frente de um prédio governamental do centro de Caracas das últimas três semanas. O Palácio de Justiça está a um quilômetro da sede do governo, o Palácio de Miraflores. Os partidos de oposição evitavam esses locais protegidos pela Guarda Nacional Bolivariana (GNB), Polícia Nacional e grupos paramilitares armados pelo governo pelo temor de uma reação violenta.

María Corina não foi presa porque sua investigação pelos mesmos crimes supostamente cometidos por López ainda não foi concluída pelo Ministério Público. "Não há ainda uma ordem de prisão contra ela", afirmou Nicmer Evans, analista político de tendência chavista. Há duas semanas, o prefeito de San Cristóbal, Daniel Ceballos, foi preso pela GNB em um hotel de Caracas sem que nenhuma ordem de prisão tivesse sido apresentada. María Corina, porém, havia sido convidada para a audiência de ontem no Senado brasileiro.

Os protestos iniciados em fevereiro resultaram na morte de 39 pessoas e na prisão de mais de 2 mil. Por meio de nota, o governo de Maduro atribuiu "o vandalismo, a violência, a instigação à delinquência, a xenofobia e os assassinatos" ocorridos desde o início de fevereiro aos "grupos violentos e armados da oposição".

A Conferência Episcopal Venezuelana (CEV) considerou "suficientemente grave" a situação da Venezuela e condenou a repressão do governo de Maduro. O Vaticano já se prontificou a mediar um diálogo entre o governo e a oposição,

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