Chavismo baixa o tom contra o setor privado

ANÁLISE:

José Luis Paniagua, EFE/O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2014 | 02h09

O tradicional confronto entre o governo venezuelano e o setor privado parece ter chegado a uma trégua com o apelo do presidente Nicolás Maduro, quinta-feira, para empresários trabalharem com o governo, em um tom conciliador inusitado em meio às más notícias sobre a economia. Nos dias seguintes aos protestos contra o governo, iniciados em 12 de fevereiro, Maduro convocou uma conferência de paz de todos os setores em busca de soluções para por fim ao descontentamento manifestado nas ruas.

Com a oposição indecisa quanto a participar ou não no diálogo, o empresariado venezuelano enviou representantes como o presidente da Fedecámaras, Jorge Roig, e o proprietário do conglomerado Polar, Lorenzo Mendoza. A aceitação pelo empresariado deu início a uma série de reuniões da Conferência Econômica de Paz, que terminou na semana passada, reunindo 700 empresários e o gabinete econômico do governo, com anúncios, medidas e até o reconhecimento por Maduro de erros cometidos pelo Executivo.

"Há uma mudança de atitude em relação ao setor privado e certo reconhecimento das gravíssimas dificuldades econômicas na Venezuela", diz o economista Richard Obuchi, professor do Instituto de Estudos Superiores de Administração (Iesa, na sigla em espanhol) da Venezuela.

Maduro anunciou na quinta-feira o pagamento parcial - cerca de 30% - de divisas devidas ao setor privado num país com sistema de controle cambial que mantém nas mãos do Estado o monopólio das moedas estrangeiras. Também foram colocados à disposição do setor privado fundos estatais para projetos e firmados acordos por setores sobre preços de venda à população.

Para Obuchi, "ainda é um passo precário para ser considerada uma solução para os problemas. E muitos temas foram omitidos", disse, referindo-se ao déficit fiscal e à necessidade de medidas de combate à inflação para promover o crescimento ou pelo menos evitar uma recessão.

As más notícias sobre a situação econômica persistem. Na semana passada, o Banco Central da Venezuela anunciou que a inflação em março ficou em 4,1%, o que ultrapassa até os índices trimestrais tradicionalmente altos, resultando numa inflação de 10,1% no primeiro trimestre deste ano, em comparação com os 7,9% do mesmo período em 2013 - que terminou com inflação de 56,2%. "O governo vem adotando algumas medidas, mas a incerteza persiste porque, embora existam sinais de movimento na direção que parece mais acertada, pois finalmente foi reconhecida a importância da iniciativa privada, as medidas estão longe de ser auspiciosas", diz Obuchi.

Na avaliação feita por Maduro diante dos empresários, houve reconhecimento dos problemas do governo para executar as políticas adotadas e também de que a burocracia causa problemas aos controles e à atividade empresarial.

"Às vezes vejo o quadro de assuntos que vocês propuseram discutir e na maior parte afirmo que 95% é verdade, não há justificativa para problemas que se acumularam e precisamos assumir isso de maneira autocrítica diante do país", afirmou o presidente.

Para o economista Victor Álvarez, ex-ministro da Indústria de Hugo Chávez e pesquisador do Centro Internacional Mirada, "essa vontade política manifestada pelo governo de Maduro, expressada dentro de uma estrutura legal, tem diante de si o desafio de se tornar operacional e se concretizar no menor tempo possível".

Apesar da eficácia ou não das medidas e do diálogo entre governo e empresários ter começado pela situação política ou econômica do país, segundo os economistas a Venezuela entrou numa nova etapa de diálogo econômico entre todos.

"Por fim, superamos a fase de diálogo de surdos, onde governo e oposição só se falavam pela imprensa, acusando-se mutuamente pelos problemas do país e na qual não era possível avançar porque os esforços e os recursos do setor público e privado não se somavam", disse Álvarez. O fato de o diálogo ter nascido de uma necessidade urgente sobre a situação econômica, ou ser algo mais estrutural, não é uma questão relevante para o economista, para quem agora "é preciso olhar para a frente, ver o que agora está planejado e valorizar isso".

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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