AP Photo/Ariana Cubillos
AP Photo/Ariana Cubillos

Chavismo cede terreno, em tática para dividir oposição e mudar Constituição

Após transferir Leopoldo López para prisão domiciliar, chavistas convidaram a oposição ao diálogo

O Estado de S.Paulo

11 Julho 2017 | 05h00

CARACAS - Com a transferência no sábado do líder opositor venezuelano Leopoldo López para a prisão domiciliar, o chavismo tentou nos últimos dias aliviar a pressão sobre o governo do presidente Nicolás Maduro dentro e fora do país, a três semanas da eleição da Assembleia Constituinte. 

Após relaxamento do regime prisional do líder do partido Voluntad Popular, lideranças civis e militares dentro do governo, como o Ministro da Defesa Vladimir Padrino e o próprio presidente, convidaram a oposição ao diálogo, em uma tentativa de voltar a dividir os antichavistas. 

O relaxamento ocorreu no final de uma semana na qual o governo teve três notícias desfavoráveis: a procuradora-geral Luisa Ortega negou-se a comparecer à audiência de um processo que pode destituí-la hoje. No dia seguinte, coletivos pró-governo invadiram a Assembleia Nacional e agrediram funcionários e deputados. Na sexta, a Igreja, importante mediador políticos no país, rompeu com o governo e qualificou o chavismo de “ditadura”. 

“Tomara que o senhor L.L. (Maduro não se referiu a López pelo nome) entenda essa medida e depois de quatro anos na prisão lance uma mensagem de paz”, disse Maduro no fim de semana. 

O comandante das Forças Armadas, o general Vladimir Padrino, considerou que a transferência de López é produto da tolerância e do diálogo. “Isso ocorreu graças à altura política do presidente da República”, declarou. 

Analistas veem na transferência de López um cálculo político do chavismo para baixar a pressão imposta pelas mobilizações de rua, o aumento da dissidência interna que não concorda com a repressão e a Constituinte e o crescente risco de insatisfação dentro do Exército - crucial para a manutenção do status quo. 

“O governo está tentando melhorar sua imagem dentro e fora do país para se livrar dos constantes ataques que tem sofrido e ver se chega com mais fôlego”, à Constituição”, diz o analista político Luis Salamanca. “É uma maquiagem do governo para esfriar os protestos e tentar desunir novamente a oposição.” 

No ano passado, a MUD aceitou sentar-se à mesa de negociações com o governo em meio à pressão pela realização de um referendo revogatório do mandato de Maduro. A decisão dividiu a coalizão e fortaleceu o governo, que evitou o referendo e adiou as eleições regionais previstas para o fim do ano. 

“Há um movimento estratégico para baixar a pressão, talvez por consequência da invasão à Assembleia, que foi demolidora em termos de imagem”, afirma Luis Vicente León, do Instituto Datanálisis. “O governo não teme as manifestações, mas sim o impacto que elas podem ter sobre o Exército e possíveis dissidências nas forças armadas. Por isso seu objetivo é baixar a pressão.”

Assessores de López e da coalizão opositora Mesa de Unidade Democrática (MUD) rejeitaram publicamente que tenha havido qualquer negociação para que o opositor deixasse o Presídio Militar de Ramo Verde. “Ainda que incompleta, a libertação de Leopoldo foi resultado da pressão nas ruas”, disse a MUD em nota. “Esse triunfo deve ser um estímulo.”

Ontem, manifestantes da oposição realizaram um bloqueio das principais avenidas de Caracas e outras grandes cidades do país. A Igreja Católica pediu que o governo anule a Constituinte. / AFP

 

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