Chavismo chama povo a 'defender resultado'; Capriles denuncia fraudes

Eleição na Venezuela. Em uma votação marcada por participação aparentemente menor e apuração mais lenta do que a registrada na disputa presidencial de outubro, campanhas de Maduro e Capriles trocam acusações e insinuam ter vencido; 43 pessoas são presas

FELIPE CORAZZA, ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

15 Abril 2013 | 02h08

Após um processo de votação relativamente tranquilo, a eleição para definir a sucessão de Hugo Chávez na Venezuela transformou-se ontem em uma noite tensa e de dúvidas. Com o atraso no fechamento das seções eleitorais - havia eleitores ainda na fila mesmo duas horas após o horário marcado para o encerramento -, partidários de Nicolás Maduro e Henrique Capriles trocaram acusações e insinuaram ter vencido a eleição.

O chefe do comando de campanha de Maduro, indicado pelo próprio Chávez para ser seu sucessor, Jorge Rodríguez, convocou o povo para se concentrar em frente ao Palácio de Miraflores, na capital, para "defender o resultado das urnas".

Dando a entender que havia resultados preliminares na mão dos candidatos - a vitória de Chávez sobre Capriles na eleição de outubro foi divulgada com maior rapidez -, Rodríguez disse que o chavismo "respeitaria o resultado", mas não ficaria inerte caso a oposição não o reconhecesse. "Defenderemos o resultado com as armas que a Constituição nos dá."

O presidente da Assembleia Nacional e vice-presidente do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), Diosdado Cabello, reiterou as ameaças à oposição. "Tomara que a direção opositora não se equivoque e cometa outro de seus costumeiros erros que acabem os afundando ainda mais."

O chefe do comando da campanha de Capriles, Ramón Aveledo, respondeu aos chavistas afirmando que organizar concentrações populares era ilegal. "Em Miraflores, mais ainda", declarou.

Enquanto apoiadores trocavam denúncias, ofensas e ameaças, os candidatos afirmavam que já estavam "recebendo resultados" e comemoravam, ambos, "boas notícias". Pelo Twitter, Capriles chegou a dizer a seus seguidores que não dessem "atenção ao Dr. Louco", referindo-se a Rodríguez. O candidato disse que chavistas estavam tentando manobras por saberem que seriam derrotados.

Até o início da madrugada (horário de Brasília), não havia pronunciamento oficial do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) a respeito da totalização de votos.

Durante a votação, integrantes da opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) denunciaram que chavistas estariam acompanhando eleitores às cabines em cidades do interior para um "voto de cabresto". A presidente do CNE, Tibisay Lucena, confirmou que houve denúncias, mas disse terem sido menos de 10 casos. Também foram registrados casos de pessoas que destruíram o comprovante de voto impresso após votarem na urna eletrônica.

O chavismo também fez suas denúncias durante o dia. O irmão do ex-presidente Chávez e governador do Estado de Barinas, Adán Chávez, disse que a oposição tentou "colocar comprovantes falsos" de votação em urnas.

Distúrbios. Eleitores que ainda estavam na fila no horário de fechamento das urnas protestaram em diversos centros de votação. No colégio San Juan Bosco, em Caracas, militares que faziam a segurança do local montaram uma barricada para conter um grupo que protestava e tentava entrar.

Foram registrados distúrbios em outros locais da capital e outras cidades do país. Segundo as autoridades, foram situações localizadas e não houve mortos ou feridos. No início da noite, o general Wilmer Barrientos, chefe do Comando Estratégico Operacional das Forças Armadas, ordenou um reforço de segurança em todas as cidades do país. A participação de militares na segurança do processo eleitoral é normal na Venezuela dentro do esquema especial Plano República. Ainda de acordo com Barrientos, 43 pessoas foram detidas por delitos eleitorais.

Sistema. O sistema de votação eletrônico com comprovante depositado em urna foi um dos pontos de discórdia entre situação e oposição ao longo da campanha. A MUD afirma que há diversos pontos frágeis que podem comprometer a lisura do processo. Para o ministro do Tribunal Superior Eleitoral Brasileiro Dias Toffoli - em Caracas como observador convidado -, o sistema eleitoral venezuelano é transparente. Ao Estado, ele afirmou que boa parte dos procedimentos foram inspirados no sistema brasileiro e as chances de fraude são reduzidas.

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