Chavismo consolida posse de Maduro e líderes mundiais dão adeus a Chávez

Enquanto Nicolás Maduro liderava na Academia Militar uma emotiva cerimônia de funeral de Estado para o líder Hugo Chávez, a Sala Constitucional do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) emitia ontem uma sentença em Caracas nomeando-o presidente interino da Venezuela e autorizando-o a concorrer nas próximas eleições sem a necessidade de separar-se do cargo.

ROBERTO LAMEIRINHAS , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2013 | 02h34

Maduro prestaria juramento horas depois, numa sessão extraordinária da Assembleia Nacional boicotada pela bancada minoritária da Mesa da Unidade Democrática (MUD), sob o argumento de que o governo estava violentando vários princípios constitucionais. Pela interpretação de boa parte dos políticos da MUD, Maduro não poderia assumir como vice de Chávez, uma vez que o presidente, morto na terça-feira, não chegou a tomar posse formalmente. A oposição também argumenta que o candidato escolhido pelo líder bolivariano não poderia concorrer ao mesmo tempo em que exerce a presidência. O TSJ, dominado por juízes simpáticos ao governo, porém, deu luz verde total ao chavismo.

Candidato presidencial da MUD, o governador de Miranda, Henrique Capriles, convocou uma entrevista coletiva para criticar duramente a decisão do TSJ. "O tribunal supremo cometeu uma fraude constitucional. Essa juramentação que vai se dar aqui é espúria", disse Capriles. "Senhores da imprensa internacional, não deixem que alguns o convençam de aqui, na Venezuela, não está acontecendo nada."

"Essa decisão do tribunal não está na Constituição. Alguém não pode se tornar vice-presidente, depois se encarregar da presidência e, logo depois, tornar-se candidato-presidente", prosseguiu o candidato, que obteve 44% dos votos na eleição de 7 de outubro, vencida por Chávez. "Quem te elegeu, Nicolás?"

"Sabemos de onde vem isso tudo", continuou. "O governo da Venezuela não será controlado por Cuba."

Também em entrevista coletiva, o porta-voz da MUD, deputado Ángel Medina, também se queixou de a sessão extraordinária do Legislativo ter sido marcada na sede de uma instalação militar - depois se decidiu que o juramento se daria mesmo na sede da Assembleia Nacional - e das declarações do ministro da Defesa Diego Molero, que exortou os militares a apoiar a "continuidade da revolução bolivariana" e a eleição de Maduro.

"Não compareceremos a essa sessão porque o que temos ouvido nos parece parte de um evento eleitoral", disse Medina. "À comunidade internacional dizemos que não podemos permitir que atos fúnebres se transformem em atos eleitorais, que pretendam levar a cabo um ato de campanha.

O campo chavista reagiu imediatamente ao anúncio do boicote da oposição. "Vamos a umas eleições e nos medimos", declarou o chanceler Elías Jaua. "Qual é o medo?"

A eleição presidencial para definir o sucessor de Chávez deve ocorrer no prazo de 30 dias após a declaração de ausência permanente do presidente. Mas o organismo eleitoral alega dificuldades técnicas para organizar a votação em um prazo tão reduzido (mais informações nesta página).

Emoção. A cerimônia fúnebre contou com a presença de mais de 30 chefes de Estado e de governo. O Brasil foi representado pelo chanceler Antonio Patriota, depois da decisão da presidente Dilma Rousseff de retornar ao País na madrugada de ontem. Com exceção de Dilma, da argentina Cristina Kirchner - que também se retirou antes da cerimônia - e de representantes do Paraguai, todos os líderes sul-americanos posaram ao lado do caixão de Chávez, na posição de guarda de honra, incluindo os não alinhados ao chavismo como Sebastián Piñera (Chile) e Juan Manuel Santos (Colômbia). O cubano Raúl Castro foi o primeiro a ser chamado pelo cerimonial para a homenagem a Chávez. De fora do continente, estavam o iraniano Mahmoud Ahmadinejad e o bielo-russo Aleksandr Lukachenko.

No discurso, Maduro chegou às lágrimas ao falar de Chávez e confirmou tentativas de aproximação com os EUA.

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