Chavismo é derrotado em Estados estratégicos

Oposição controlará as 5 regiões mais populosas e ricas da Venezuela

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

25 de novembro de 2008 | 00h00

Ao vencer nos Estados mais populosos e economicamente importantes, a oposição venezuelana conseguiu nas eleições regionais de domingo uma grande oportunidade para lutar por uma divisão de poder mais eqüitativa na Venezuela. O presidente Hugo Chávez mais uma vez conquistou a maioria dos Estados, recuperando três regiões cujos governadores haviam rompido com o chavismo e vencendo em número de votos. Mas, mesmo assim, sai enfraquecido da disputa, dizem analistas. A divulgação da maior parte dos resultados só terminou na manhã de ontem, porque a participação recorde (65,45%) levou o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) a prorrogar o tempo de votação. O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), de Chávez, venceu em 17 Estados. A oposição levou a prefeitura das duas maiores cidades, Caracas e Maracaibo, e mais 5 Estados de peso: Zulia, que produz 80% do petróleo venezuelano, Carabobo, o principal pólo industrial da Venezuela, Miranda, onde está Caracas, Táchira, na fronteira com a Colômbia, e Nueva Esparta. Juntas, essas regiões representam quase 45% da população venezuelana e 70% da atividade econômica. Nas últimas eleições (2002), os opositores haviam ganhado em apenas dois Estados (Zulia e Nova Esparta). O presidente não reconheceu que a oposição tenha avançado. "Foi uma grande vitória da revolução bolivariana", declarou ontem em entrevista no Palácio de Miraflores, após dizer que reconhecia apenas "vitórias limitadas, parciais, de alguns líderes e movimentos opositores". Ele disse que a dissidência chavista virou "pó cósmico" nas eleições.Chávez destacou a participação recorde de 65% e disse que os candidatos do PSUV receberam 5,5 milhões de votos e a oposição, 4,2 milhões. "Recebemos mais votos do que no referendo de dezembro (sobre a reforma constitucional) e ganhamos em 80% das prefeituras." Chávez também acusou os governadores eleitos de Carabobo e Táchira e duas TVs de "violar a lei" ao anunciar o resultado da disputa nesses Estados antes do CNE. A oposição, porém, ficou eufórica com a conquista dos cinco Estados e mesmo o vice-presidente do PSUV, Alberto Muller Rojas, apesar de não admitir um crescimento "significativo dos adversários", não descartou a possibilidade de que o partido chavista tenha de realizar um processo de "revisão, retificação e relançamento".Foram poucos os que não reconheceram os resultados. O candidato Júlio César Reyes, dissidente do chavismo, anunciou que pedirá a impugnação por fraude dos resultados da eleição para governador de Barinas, que deram a vitória a Adán Chávez, irmão mais velho do presidente venezuelano. De acordo com resultados parciais, Adán obteve 49,63% dos votos e Reyes, 44,58%.Segundo analistas, o avanço da oposição dificulta os planos de Chávez de aprofundar sua revolução e aprovar, por meio de uma emenda constitucional, o projeto que permitiria reeleições ilimitadas para presidente. "Foi a resistência a tal projeto que fez com que a reforma constitucional do presidente fosse rejeitada no referendo de dezembro", lembra o cientista político José Argenis Araque, da Universidade dos Andes. "Se Chávez somar a isso o aumento do peso político da oposição e a crise econômica agravada pelos baixos preços do petróleo, certamente adiará uma nova ofensiva para aprovar as reeleições ilimitadas."Nos últimos meses, o presidente venezuelano percorreu o país para fazer campanha pelos candidatos do PSUV. A estratégia era transformar as eleições regionais em mais um plebiscito sobre seu governo e compensar as debilidades dos candidatos locais de seu partido vinculando-os à figura de Chávez. "Não há como negar que o apoio a Chávez ainda é grande na Venezuela, apesar do descontentamento causado por problemas como inflação, violência, desabastecimento de produtos básicos e o que um número crescente de venezuelanos vê como excesso de autoritarismo do presidente", diz Araque. Até porque, em Estados como Carabobo e Táchira, por exemplo. os opositores venceram por estreita margem.

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