Chavismo está produzindo mártires

A prisão de Leopoldo López, sem processo legal, legitimou sua oposição ao governo; número de seus seguidores está aumentando

Eric Farnsworth*, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2014 | 02h00

O movimento de oposição na Venezuela parece ter encontrado a sua voz com o surgimento de Leopoldo López, líder disposto a assumir riscos em favor das mudanças. Ao acusar López de terrorismo e de tramar para depor o governo, Nicolas Maduro tinha poucas alternativas senão prendê-lo quando ele se apresentou liderando os protestos na terça-feira em Caracas. Assim, o governo deu legitimidade a López de um modo que somente a prisão e a perseguição conseguem.

O interesse da imprensa e do público é saber se López permanecerá na prisão e em quais condições. Sua detenção sem processo legal agitou ainda mais as ruas. O governo está consciente do dilema que criou. Nada menos que uma figura como Diosdado Cabello, o fidelíssimo presidente da Assembleia Nacional, escoltou López para seu confinamento. Sinistramente, chavistas sugeriram publicamente, sem prova, que existe uma conspiração da extrema direita para assassinar López.

O governo espera tirar o fôlego do movimento de protesto prendendo seus líderes e perseguindo os participantes das manifestações. Houve diversas mortes. Até agora o governo atacava oponentes usando coação econômica e censura política, mas mortes e desaparecimentos, responsabilidade do governo ou de capangas e matadores de aluguel patrocinados por ele, criaram mártires que não são esquecidos facilmente.

Não significa que a Venezuela entrará numa fase de ingovernabilidade ou guerra civil. Maduro continua com o monopólio do uso da força, da informação e da economia e, provavelmente, manterá o controle se assim o decidir. Também recebe orientação e força em tempo real do regime de Cuba, que tem certo conhecimento em lidar com protestos e com líderes de oposição.

Naturalmente, isso exigirá mais repressão. A Unasul, a OEA, a Celac e os EUA, entre outros, apelam para as partes acalmarem os ânimos. Tendo se aproximado do abismo, o governo e os manifestantes podem, na verdade, recuar. Isso não bastará para resolver os problemas do país: a economia combalida, a inflação galopante, a escassez de produtos de consumo e o aumento da criminalidade. Também não resolverá o dilema sobre o que fazer com López. Se o governo o libertar, ele já prometeu convocar novos protestos e seus seguidores vêm aumentando em número. Se o mantiver afastado, ele se tornará a lembrança diária da repressão e das práticas antidemocráticas.

Até o momento, o governo parece estar satisfeito que Henrique Capriles, ex-candidato à presidência, fale pela oposição. Capriles está envolvido com problemas como governador do Estado de Miranda e preferiu assumir uma posição menos beligerante. Pego de surpresa pelo entusiasmo da população com a nova proposta de López, o chavismo está numa encruzilhada e talvez não saiba ao certo como reagir.

Os governos da região deveriam deixar claro que liberdade de reunião, protestos pacíficos e liberdade de expressão são valores defendidos pela comunidade internacional e consagrados na Carta Democrática Interamericana, da qual a Venezuela é signatária. Se não são respeitados, não fica claro, por exemplo, por que a Venezuela deve ser acolhida nos fóruns do continente onde a democracia é condição essencial para uma adesão. Menos de um ano após a morte de Hugo Chávez, a base revolucionária que ele erigiu para a Venezuela parece estar enfraquecendo.

*Eric Farnsworth é chefe do escritório de Washington do Americas Society/Council of the Americas.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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