AP Photo/Ariana Cubillos, File
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Chavismo afasta calote com venda de US$ 2,8 bi em bônus e oposição reage

Opositores e governo americano criticam compra pelo banco Goldman Sachs de títulos da petrolífera estatal PDVSA com desconto de 69%, negócio que alivia pressão sobre governo de Maduro

O Estado de S.Paulo

30 Maio 2017 | 19h51

CARACAS - A oposição venezuelana e o governo americano posicionaram-se nesta terça-feira contra a compra pelo banco Goldman Sachs de US$ 2,8 bilhões em títulos da petrolífera estatal PDVSA com 69% de desconto. A negociação dá fôlego ao governo de Nicolás Maduro, que enfrenta o risco de calote pelo baixo volume de reservas, hoje em US$ 10,5 bilhões. A inflação e a escassez de alimentos são combustível para protestos que já duram 60 dias. 

O deputado opositor Julio Borges, presidente da Assembleia Nacional, acusou o banco de “ajudar a ditadura na Venezuela”. Borges disse que o banco “se aproveita para fazer dinheiro fácil” com o sofrimento da população. Segundo ele, um futuro governo pode não pagar os títulos comprados na baixa. O banco disse que na operação não houve contato direto com Caracas e o negócio foi feito no mercado secundário. “A Venezuela e seu futuro governo democrático não esquecerão onde esteve o banco quando teve de decidir”, protestou Borges. 

O departamento de gestão de ativos do banco pagou US$ 0,31 pelos títulos da PDVSA emitidos em 2014, que vencem em 2022. Se Caracas arcar com o pagamento, o banco terá lucro de aproximadamente 40%.

No fim do dia, o Congresso venezuelano pediu aos EUA que investiguem a transação. Um funcionário que falou em nome do governo americano considerou o negócio “problemático” pela falta de aprovação do Legislativo, dominado pela oposição.

Constituinte. Um dia antes de uma reunião na Organização dos Estados Americanos (OEA) destinada a propor uma nova mediação e a aumentar a pressão contra uma mudança constitucional na Venezuela, a Justiça eleitoral do país deu nesta terça-feira prazo de 11 dias para apresentação de candidatos. A oposição divulgou nesta terça-feira um balanço que contabiliza 2.977 presos e 61 mortos desde o começo da onda de violência, em abril. 

 

Segundo a presidente do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), Tibisay Lucena, os candidatos às 364 cadeiras da Assembleia disputadas nas urnas podem se inscrever até o dia 10 e, para isso, precisam apresentar assinaturas de 3% dos eleitores de seu distrito. Ainda não está claro se a oposição vai boicotar a votação. Os nomes, ainda de acordo com o CNE, serão validados entre os dias 11 e 15. 

Outros 173 deputados constituintes serão definidos por setores sociais, como camponeses, sindicatos, estudantes e empresários – a maioria deles ligada ao chavismo. Oito representantes serão eleitos por comunidades indígenas. A oposição diz que a Assembleia é uma tentativa de Maduro de ampliar seu controle sobre o Estado e a maneira como os deputados serão eleitos favorece o chavismo e desrespeita a vontade popular. 

A atual Constituição do país foi aprovada em 1999 depois da chegada de Hugo Chávez ao poder e referendada em votação popular um ano depois. 

Ainda nesta terça-feira, a ONG Foro Penal venezuelano – ligada à oposição – informou que 2.977 pessoas foram detidas, das quais 197 por ordem de tribunais militares, desde o início dos protestos, em 1.° de abril. Ao menos 1.351 pessoas permanecem presas.

Alonso Medina, advogado da organização de direitos humanos, assegurou que 355 civis foram julgados por tribunais militares e 197 deles foram enviados para a prisão. “A estrutura de Justiça militar está subordinada ao Executivo, o que viola os princípios fundamentais do direito. É uma situação típica de regimes ditatoriais”, disse.

A onda de violência ligada às manifestações que exigem eleições gerais e a saída do presidente deixou 61 mortos e mais de mil feridos, de acordo com a Procuradoria-Geral da República. A oposição promete uma escalada em suas mobilizações.

Diplomacia. Na OEA, chanceleres do continente debatem nesta quarta-feira a crise. A reunião ocorrerá sem a presença da Venezuela, que iniciou em 28 de abril o processo formal de saída da entidade. Dois projetos de declaração já tinham sido protocolados na OEA para serem discutidos pelos ministros.

Ambos pedem ao governo venezuelano que desista de sua iniciativa de convocar uma Assembleia Constituinte para redigir uma nova Constituição para o país. Os textos também pedem a adoção de um calendário eleitoral, o fim da violência e o fim das prisões arbitrárias, a libertação de detidos por razões políticas e a aceitação de assistência humanitária pelo país.  / AFP, AP e EFE

 

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