Rayner P./EFE
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Chavismo instala novo Parlamento na Venezuela prometendo 'exorcizar' era Guaidó

Partido Socialista conquistou 256 dos 277 assentos em eleições boicotadas pela maioria da oposição; Grupo de Lima não reconhece legitimidade do processo

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2021 | 22h47
Atualizado 05 de janeiro de 2021 | 23h20

CARACAS - Levantando retratos de Hugo Chávez e de Simón Bolívar, o chavismo assumiu o controle do novo Parlamento venezuelano nesta terça-feira, 5, enquanto o líder da oposição, Juan Guaidó, tenta manter um Congresso paralelo com apoio internacional. 

Com 256 dos 277 assentos conquistados em 6 de dezembro em eleições boicotadas pela maioria da oposição, que as chamou de "fraude", o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e seus parceiros políticos passaram a dominar a Assembleia Nacional no período 2021-2026.

O Grupo de Lima, do qual o Brasil faz parte, não reconheceu a legitimidade ou a legalidade da nova Assembleia, que considera "produto das eleições fraudulentas de 6 de dezembro de 2020, organizadas pelo regime ilegítimo de Nicolás Maduro".

"Fomos obrigados ao exorcismo" após cinco anos de oposição no Parlamento, lançou o ex-ministro da Comunicação Jorge Rodríguez, eleito por aclamação para presidir a Câmara no primeiro ano de sessões. "Borrifamos água benta em todos os cantos das paredes", acrescentou ele com ironia.

Rodríguez convocou um "grande diálogo político", do qual participe todo o espectro da oposição, incluindo quem boicotou as legislativas. Mas negou uma "reconciliação com amnésia" em relação à legislatura anterior da Assembleia, durante a qual Guaidó foi proclamado presidente interino, em 2019, e que promoveu uma avalanche de sanções para tentar forçar a saída de Maduro. "Coloquem sanções onde quiserem. São inúteis", disse ele. 

Durante a campanha, Maduro e os candidatos do PSUV propuseram uma legislação para punir "traidores" como Guaidó e os congressistas da maioria opositora da Assembleia em fim de legislatura. O presidente disse se sentir "muito otimista" com este chamado a "um diálogo inclusivo, de todo o país".

Imediatamente, em nota do Departamento de Estado, o chefe da diplomacia americana, Mike Pompeo, rejeitou o Parlamento eleito pelo chavismo por considerá-lo "ilegítimo", e qualificou de "farsa" as eleições de dezembro, afirmando que para Washington, a única autoridade "legítima" na Venezuela são o Parlamento eleito em 2015 e seu líder, Guaidó.

Ruas bloqueadas

As ruas próximas ao Palácio Legislativo, no centro de Caracas, foram bloqueadas por policiais e militares. Apenas um pequeno grupo de apoiadores do chavismo conseguiu acesso, em meio a um confinamento decretado por Maduro esta semana devido à pandemia de covid-19.

Usando máscaras, os parlamentares chavistas se reuniram na Praça Bolívar, onde fizeram uma coroa de flores e depois marcharam, com música folclórica ao fundo e sem distanciamento social, carregando retratos de Chávez em uniforme militar e também de Simón Bolívar.

Um ato semelhante foi apresentado em 2017, antes da instalação da Assembleia Constituinte (ANC) 100% chavista para neutralizar o trabalho do Parlamento, então controlado pela oposição.  Agora que o chavismo recuperou a Câmara, a Constituinte suspendeu funções. 

A diretoria do novo Parlamento é composta por Iris Varela, como primeira vice-presidente, e Didalco Bolívar, como segundo, ambos altas personalidades do chavismo. 

'Estamos de pé'

A maioria da oposição no antigo Parlamento, que quebrou 15 anos de hegemonia chavista em 2015, aprovou no dia 26 de dezembro a “continuidade” do seu mandato até que se realizem eleições presidenciais e legislativas "livres, justas e verificáveis".

“Apesar do show que estão fazendo no Palácio Legislativo Federal sequestrado por uma ditadura que ninguém reconhece (...) Estamos aqui, de pé”, disse Guaidó nesta terça-feira em sessão virtual na qual foi ratificado como presidente por mais um ano. 

O ato foi realizado em local não revelado por "segurança", de acordo com a equipe do líder da oposição.

Foi no cargo de chefe do Parlamento que Guaidó reivindicou a presidência interina depois que parlamentares da oposição declararam Maduro um "usurpador", o acusando de ter sido reeleito fraudulentamente em 2018.

Questionamentos renovados

A instalação do novo Parlamento de linha chavista coincide com o fim da presidência de Donald Trump, o principal aliado de Guaidó, nos Estados Unidos.

Maduro já fez vários apelos ao diálogo dirigidos ao sucessor de Trump, o democrata Joe Biden, que chega à Casa Branca em 20 de janeiro. 

No entanto, ao renovar seu apoio a Guaidó, Washington pediu nesta terça-feira que o líder e aqueles que o apoiam sejam livres de "assédio, ameaças, perseguições e outros abusos" por parte do governo socialista de Maduro, que os ameaçou com mão pesada. 

Os vizinhos Brasil e Colômbia, além do Uruguai, ratificaram nesta terça-feira que não reconhecem o Legislativo chavista. Em nota, o Grupo de Lima afirmou reconhecer "a existência da Comissão Delegada chefiada por sua legítima Junta Diretiva, estabelecida pela Assembleia Nacional, presidida por Juan Guaidó" e apelou à comunidade internacional para que rechace a Assembleia e "apoie os esforços para a recuperação da democracia, do respeito aos direitos humanos e do Estado de Direito na Venezuela". "Continuaremos trabalhando" com Guaidó, escreveu no Twitter o chanceler Ernesto Araújo. /AFP

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