Chavismo lança ofensiva para evitar derrota em eleições parlamentares

O chavismo aposta em três frentes para reverter uma possível derrota nas eleições parlamentares marcadas para o dia 6 de dezembro, indicam analistas e fontes próximas ao governo venezuelano. As alternativas buscadas são uma economia drástica nos dólares obtidos com a exportação de petróleo, a cooperação com o Brasil para incrementar a importação de alimentos e remédios e um relaxamento da tensão com os EUA.

LUIZ RAATZ, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2015 | 02h33

Desde o 2013, o governo cortou em 60% o volume de recursos em dólar disponibilizados para o setor privado venezuelano, segundo dados do Centro Nacional de Comércio Exterior (Cencoex). De US$ 33 bilhões há dois anos, esse volume caiu para US$ 20 bilhões em 2014 e deve terminar 2015 próximo de US$ 12,5 bilhões.

Apesar de ter as contas severamente prejudicadas pela queda no preço do petróleo e de precisar pagar em outubro uma parte da dívida da PDVSA no mercado internacional, ainda restaria ao governo, segundo analistas, uma pequena margem de manobra para acelerar o ritmo das importações no fim do ano.

Uma fonte próxima ao governo afirmou ao Estado que o chavismo pretende ampliar a oferta de bens e alimentos no fim do ano. "Há ainda algo para raspar no fundo da panela para amenizar a escassez", disse. "O Ministério do Comércio negocia a importação de alguns contêineres até a eleição, não só de alimentos, mas também de bens como TVs e geladeiras."

Analistas críticos e favoráveis ao governo veem como possível a operação. "A Venezuela acabou de sacar US$ 1,5 bi do FMI. Houve a renegociação das dívidas da Petrocaribe. E desde o ano passado se restringe a venda de dólares para qualquer coisa que não seja comida ou remédio", disse o economista chavista Hernán Torres, da Universidade Experimental de Caracas, criada por Hugo Chávez para dar formação universitária a policiais e militares. "Todo esse dinheiro represado está sendo guardado para duas coisas: pagar a dívida externa e para, nos últimos meses do ano, fazer importações maciças de alimentos e bens de primeira necessidade para criar a sensação de bonança."

Luis Vicente León, do Instituto Datanálisis acha possível que o governo aposte numa alta súbita das importações no fim do ano. "Sem dúvida, veremos ações populistas em matéria econômica para diminuir a tensão da crise na população", afirmou. "O governo ainda tem dinheiro para pagar a dívida e para fazer a campanha. O problema é 2016."

Brasil. Além dessa poupança estratégica, o chavismo busca também auxílio em países aliados, como o Brasil, para amenizar a escassez crônica de alimentos e remédios na Venezuela.

Há duas semanas, o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, um dos homens mais fortes do chavismo, esteve no País. Entre reuniões com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em São Paulo, e a presidente Dilma Rousseff, em Brasília, Cabello visitou fábricas de duas empresas: a produtora de remédios Hypermarcas e frigoríficos do grupo JBS.

Em pauta, segundo a imprensa estatal venezuelana e o próprio Cabello, estiveram acordos que permitam que a Venezuela obtenha os produtos dos quais necessita. "Temos certeza de que com o apoio dos empresários brasileiros conseguiremos enfrentar a guerra econômica que promovem setores políticos e empresariais da Venezuela", disse Cabello durante a vista à Agência Venezuelana de Notícias. "Esperamos sair do Brasil com remédios em mãos. Se necessário, usaremos aviões da Força Aérea para levá-los."

Aproximação. Além da negociação por alimentos e remédios, Cabello também falou de política no Brasil, de acordo com fontes que acompanham os bastidores do chavismo, em reuniões com Lula e Dilma. "A viagem internacional de Diosdado teve dois propósitos: mostrar força interna em meio às denúncias que o vinculam ao narcotráfico e discutir estratégias para a eleição", disse uma fonte chavista à reportagem.

De Brasília, Diosdado partiu para o Haiti, onde, no dia 14, se reuniu com Thomas Shannon - embaixador americano no Brasil entre 2009 e 2013 e assessor do Departamento de Estado, que nos últimos meses foi incumbido pelo governo americano negociar com Caracas. Cinco dias depois, Cabello foi a Cuba, onde se encontrou com Raúl e Fidel Castro.

"O chavismo conta com duas assessorias internacionais fundamentais, Uma delas é a de Lula, no Brasil. Em sua visita, Diosdado discutiu estratégias eleitorais com ele", disse ao Estado Heinz Dieterich, ex-assessor de Hugo Chávez. "Para evitar uma situação caótica, Maduro terá de acatar a sugestão feita por Lula no ano passado de um formar um governo de coalizão."

Nesta semana, depois da sequência de reuniões com Shannon, Lula, Dilma e Raúl, o chavismo cedeu às pressões que a oposição fazia havia meses. Marcou a data das eleições, soltou dois opositores presos desde o ano passado e acenou com a possibilidade de novas libertações.

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