REUTERS/Enrique Marcarian
REUTERS/Enrique Marcarian

Chavismo perde peso em visita de Temer a Macri 

Agenda do presidente em Buenos Aires coloca retomada de comércio como prioridade

Rodrigo Cavalheiro CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

04 de outubro de 2016 | 05h00

A primeira das quatro perguntas que os presidentes de Brasil e Argentina responderam ontem na Quinta de Olivos, residência oficial do líder argentino, foi sobre um tema que a chancelaria brasileira garante não ter ocupado um minuto da reunião prévia entre ambos. Questionados sobre Venezuela, Michel Temer e Mauricio Macri reforçaram a rota de suspensão se o país não acatar a normativa do Mercosul até 1.º de dezembro.

O componente novo foi justamente a apresentação do debate como um tema “superado”, que não deveria roubar tempo de assuntos como diminuição de travas ao comércio exterior e avanços em negociação com União Europeia e Aliança do Pacífico.

“A questão da Venezuela nem foi discutida porque já foi tomada uma decisão, não se dedicou um minuto à Venezuela. Já está todo resolvido o caminho. O Macri assume em seguida a presidência do Mercosul, porque o primeiro semestre do ano que vem é da Argentina”, disse Serra antes de embarcar para o Paraguai, último trecho da primeira viagem de Temer pela região, dedicado a visitar os países que mais respaldo lhe deram após o impeachment.

O chanceler exaltou a fixação de pontos para ampliar o livre comércio no Mercosul e o fortalecimento de fronteiras. Foi fechado um acordo para estimular as exportações por pequenas e médias empresas e outro para facilitação do comércio.

Serra disse que uma ajuda do Vaticano, de Cuba e dos EUA na crise venezuelana seria bem-vinda. “Há 700% de inflação, desabastecimento de mais de 90% nos medicamentos, falta de alimentos e violação de direitos humanos. Queremos uma solução, mas não está em nossas mãos”, concluiu.

Ao responder sobre Caracas, Temer havia exaltado o consenso alcançado “agora com a presença do Uruguai”. Ele disse estar preocupado com a preservação dos direitos políticos e humanos. Macri reforçou que se Caracas não cumprir as normas “perderá as condições de membro ativo do Mercosul”. “Estamos muito mais preocupados com a violação dos direitos humanos e a não aceitação do governo sobre o referendo que se propôs”, disse Macri, referindo-se à votação que poderia abreviar o mandato de Nicolás Maduro.

Colômbia. Ambos opinaram em linha semelhante sobre os próximos passos nas tratativas de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Lembraram o resultado apertado no referendo de domingo, em que o acordo de paz foi derrotado, para defender mais negociação.

“É preciso que continue o cessar-fogo, é fundamental para se encontrar uma alternativa. O resultado foi muito apertado. Demonstra que há muita gente que acredita no acordo. Também que muita gente que votou contra quer o mesmo, mas em outro tipo de bases”, disse Macri, após Temer ressaltar a diferença mínima e a participação de apenas 37%.

Para lembrar. A situação da Venezuela no Mercosul tem se deteriorado sensivelmente desde que a crise econômica e social no país se agravou, a partir de 2013. O país vizinho tem sido acusado de violações constantes de direitos humanos, incluindo prisões de líderes da oposição e detenções sem justificativa de manifestantes contrários ao governo chavista. 

Após as mudanças de governo no Brasil e na Argentina, a pressão sobre Caracas aumentou, chegando a impedir que os venezuelanos assumissem a presidência rotativa do bloco – a previsão era de que isso ocorresse este ano, mas acordos foram feitos nos bastidores para evitar a passagem do comando. Na frente política, vizinhos pressionam a Venezuela para que convoque ainda este ano o referendo revogatório do mandato de Nicolás Maduro, instrumento previsto pela Constituição venezuelana.

 

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