Chavismo se diz vítima de perseguição após erro de jornal espanhol em foto

O governo da Venezuela disse ontem que vai à Justiça em razão de uma imagem, erroneamente identificada como sendo do presidente Hugo Chávez, que chegou a ser publicada pelo diário espanhol El País em suas edições impressa e online. A Embaixada da Venezuela em Madri denunciou uma "campanha" contra Chávez.

CARACAS, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2013 | 02h01

O El País parou a impressão às pressas quando descobriu que a foto de um homem com respirador artificial em uma mesa de cirurgia não era do venezuelano. Mas bancas espanholas e latino-americanas receberam o exemplar com a capa equivocada. O site do periódico também removeu a imagem. "O El País pede desculpas a seus leitores pelo prejuízo. O jornal abriu uma investigação para apurar o ocorrido e os possíveis erros na verificação da foto", disse em comunicado a empresa.

O governo chavista vinculou a publicação a uma suposta posição política do jornal contra Chávez. O ministro das Comunicações Ernesto Villegas disse em sua conta no Twitter que a foto era tão grotesca quanto falsa. "O El País publicaria tal imagem de um líder europeu? Sensacionalismo é válido se a vítima é um revolucionário sul-americano", disse Villegas. Governos ligados ao chavismo - como Cuba e Nicarágua - aproveitaram o episódio para denunciar uma "perseguição" ao líder venezuelano. À noite, Villegas disse que o governo buscará "ações legais" contra o jornal.

A imagem foi retirada de um vídeo do YouTube publicado em 2008 no México sobre um procedimento cirúrgico em um paciente com acromegalia, uma doença hormonal. O ministro acusou o ex-embaixador do Panamá na Organização dos Estados Americanos (OEA) Guillermo Cochez de difundir a imagem.

A imagem foi vendida pela agência Gtres Online, segundo o jornal. No texto que acompanhava a foto na capa do jornal, o periódico informava que não podia confirmar a veracidade da imagem nem a data na qual havia sido tirada.

Segundo fontes no jornal consultadas pelo Estado, a foto chegou na manhã de quarta-feira à redação, mas permaneceu em sigilo com a direção do jornal até as 21 horas. "Discutiu-se que era muito forte a imagem, mas não a veracidade. Todos acreditaram que tinha sido feita por uma enfermeira cubana que tinha uma irmã em Madri", disse um jornalista que viu a foto antes da publicação.

A falha foi descoberta às 3 horas de ontem, após publicação na web. Internautas que haviam visto o vídeo na Venezuela alertaram o jornal. Segundo o diretor de redação do diário espanhol El Mundo - concorrente do El País -, Pedro Ramírez, a mesma foto foi oferecida por 30 mil.

Segundo a missão de Caracas em Madri, o El País desenvolve uma campanha contra Chávez e o povo venezuelano. "A publicação revela a falta de ética na sua cobertura sobre a Venezuela, além do desprezo pelo povo que reelegeu o presidente Chávez", disse a embaixada. O embaixador da Venezuela no Brasil, Maximilien Sánchez, disse ao deixar o Palácio do Planalto, onde se encontrou com o assessor da presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, que a foto é uma "mentira". O El País não respondeu às críticas do governo chavista.

O Instituto Prensa Y Sociedad (Ipys) - entidade venezuelana que luta pela liberdade de imprensa - criticou a publicação da foto e a conduta do governo em relação ao quadro de Chávez. Para a diretora do Instituto, Marianela Balbi, falta transparência ao governo e isso favorece a publicação de rumores e informações incorretas. "Rechaçamos o uso da informação do uso da saúde do presidente sem ética profissional. Mas isso ocorre por que não há uma política comunicacional transparente", disse. "Por outra parte, esses fatos alimentam essa linha do governo de qualificar qualquer coisa de guerra midiática."

Desde que Chávez foi internado em Cuba em 11 de dezembro para uma quarta cirurgia contra um câncer, houve 29 comunicados sobre sua saúde. Nenhum apontou o tipo de tumor. Ontem, o chanceler Elías Jaua, disse ter falado com o presidente, que ele está em pleno processo de recuperação, mas agora virá uma "batalha mais complexa contra a doença". / LUIZ RAATZ, RAFAEL MORAES MOURA e RODRIGO CAVALHEIRO, COM AFP

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