Tomas Munita/The New York Times
Tomas Munita/The New York Times

Chavismo usou médicos cubanos para coagir eleitor venezuelano

Profissionais denunciam sistema de manipulação política no qual seus serviços eram usados para garantir votos

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2019 | 05h00

WASHINGTON - Yansnier Arias sabia que era errado. Violava a Constituição, sem falar em seu juramento de médico em Cuba. Ele havia sido mandado para a Venezuela pelo governo cubano como um dos milhares de médicos deslocados para consolidar os laços entre os aliados e aliviar o sistema médico, em colapso. Mas, com a reeleição do presidente Maduro à vista, nem todo doente deveria ser tratado, disse Arias. 

Um paciente de 65 anos com insuficiência cardíaca deu entrada em sua clínica e precisava urgentemente de oxigênio, afirmou o médico. Os tanques estavam em outra sala, prontos para uso, lembrou ele. Entretanto, seus superiores disseram-lhe que o oxigênio era uma arma política: não deveria ser usado em emergências naquele dia, mas distribuído mais perto da eleição como parte de uma estratégia para forçar pacientes a votar no governo.

O dia 20 de maio de 2018 se aproximava, disse ele, e a mensagem era clara: Maduro tinha que ganhar, a qualquer preço. “Havia oxigênio, mas não me deixaram usar”, afirmou Arias, que desertou do programa médico do governo cubano no ano passado e hoje vive no Chile. “Tínhamos que reservar o oxigênio para a eleição.”

Para manter seu controle sobre a Venezuela, Maduro e seus apoiadores têm usado com frequência o colapso econômico da nação a seu favor, acenando com alimentos para eleitores famintos, prometendo subsídios extras e exigindo que as pessoas apresentem cartões de identificação atrelados a rações do governo quando votarem. Mas participantes do esquema de pressão dizem que Maduro e apoiadores estão usando uma outra ferramenta: o contingente médico internacional de Cuba.

Em entrevistas, 16 membros da missão médica cubana na Venezuela – uma das bandeiras das relações entre os dois países – descreveram um sistema de manipulação política deliberada no qual seus serviços eram usados para garantir votos para o governante Partido Socialista, frequentemente por meio de coerção. Muitas táticas foram usadas, disseram eles, da simples recomendação para votar no governo à negativa de tratamento médico a adeptos da oposição com doenças graves.

Médicos cubanos disseram que receberam ordens de ir de casa em casa em bairros pobres, oferecendo remédios e advertindo os moradores de que seriam excluídos dos serviços médicos se não votassem em Maduro ou em seus candidatos. Muitos disseram que seus superiores determinaram que fizessem o mesmo durante consultas a portas fechadas.

Uma ex-supervisora médica cubana disse que ela e outros agentes de saúde estrangeiros receberam títulos falsos para votar. Outra médica disse que ela e colegas foram orientados a ensinar como votar pacientes idosos, cujas enfermidades os tornavam fáceis de serem manipulados. “Por que um médico, alguém destinado a uma missão humanitária, tem que ajudar a vencer eleições?”, disse outro médico. “Isso se chama fraude.”

O governo venezuelano não atendeu a pedidos de esclarecimentos. O governo cubano assinalou que há décadas os médicos do país são elogiados por suas missões – combatendo o ebola na África, problemas de visão na América Latina e a cólera no Haiti, por exemplo. Havana negou as acusações dos médicos de que foram envolvidos em campanhas eleitorais / NYT, tradução de Roberto Muniz

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