Chavismo vive sua crise final

Decisão de impedir a realização de referendo revogatório é aspecto mais escandaloso da atual tormenta na Venezuela

*CARLOS MALAMUD - INFOLATAM, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2016 | 05h00

Independentemente do desenlace da atual crise na Venezuela, nada no país voltará a ser como antes. A mobilização popular e a tão temida repressão ressaltaram mais uma vez o caráter autoritário do regime, só que desta vez não haverá volta e será impossível convencer os venezuelanos e a comunidade internacional das grandes virtudes do processo bolivariano. Os acontecimentos da última semana serviram para deixar expostas todas as infâmias do regime e para fazer desaparecer a máscara da revolução bolivariana e do governo a serviço dos pobres.

Hoje, a situação não é a mesma de anos atrás. Para começar, Nicolás Maduro não é Hugo Chávez. Embora ele ainda tenha total respaldo de Cuba, a queda nos preços do petróleo limita as margens de atuação de um e outro. Em segundo lugar, a Assembleia Nacional está nas mãos da oposição. O que compromete seriamente a possibilidade de Maduro continuar insistindo no caráter marginal e antissistema dos que formam a coluna vertebral dos “inimigos” do processo.

Mas o aspecto mais escandaloso foi a determinação do Conselho Nacional Eleitoral de prorrogar indefinidamente a convocação do referendo revogatório. Quando o chavismo vencia uma eleição atrás da outra e se proclamava um modelo de democracia, a figura do revogatório se apresentava como prova do compromisso democrático do regime. 

A legitimidade original dos sucessivos governos chavistas era o escudo protetor que defendia o movimento bolivariano contra críticas internas e externas. Mas também no âmbito internacional (especialmente na América Latina) as coisas mudaram muito. O secretário-geral da OEA, Luis Almagro, reiterou exatamente esse aspecto ao considerar definitivamente encerrada a missão de mediação da Unasul, integrada por Leonel Fernández, Martín Torrijos e José Luis Zapatero. 

Embora Almagro se refira claramente a uma ditadura, muitos latino-americanos continuam se calando. As muitas denúncias de golpe contra Dilma Rousseff se transformaram em clamoroso silêncio no tocante a tudo o que diz respeito à chamada revolução bolivariana. Apesar disso, o regime chavista vive sua crise final. 

A tentativa ilegal de Maduro e seus partidários de se perpetuarem no poder pode ser bem-sucedida ou, pelo contrário, resultar na sua saída. Nesse último caso, não se descarta a possibilidade de um governo militar de transição que permita a convocação de novas eleições. Mas se o resultado for a continuidade do chavismo, com ou sem Maduro à frente, o governo popular se tornará claramente uma vulgar ditadura, cada vez mais isolada internacionalmente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*PESQUISADOR PARA AMÉRICA LATINA E COMUNIDADE IBERO-AMERICANA DO REAL INSTITUTO ELCANO DE ESTUDOS INTERNACIONAIS E ESTRATÉGICOS. PUBLICADO SOB LICENÇA DA INFOLATAM

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