Chavistas denunciam golpe e pedem plebiscito

Centenas de pessoas se aglomeraram neste sábado à tarde na frente do Palácio Miraflores, a sede do governo venezuelano, no centro de Caracas, para protestar contra a deposição de Hugo Chávez. Ao que tudo indica, foi uma manifestação espontânea.Não havia alto-falantes, palavras de ordem ou faixas, apenas algumas bandeiras da Venezuela. A polícia se manteve distante. Nove soldados, armados de fuzis, vigiavam do teto de um edifício anexo ao palácio. "Olhe lá os franco-atiradores", apontavam os manifestantes.Caminhando de um lado para o outro, Yesenia Fuente exibia o rosto com um protuberante curativo na bochecha. Ela disse que participava da manifestação da última quinta-feira, do lado dos simpatizantes de Chávez - grupos pró e contra se encontraram nas imediações do palácio -, quando um militar atirou nela.A versão é interessante porque os disparos de franco-atiradores contra a multidão que protestava contra Chávez, matando 15 pessoas, foi o principal pretexto para a intervenção das Forças Armadas. "Somos o povo, somos pacíficos e estão nos assassinando", gritou Edgar Mora, técnico em administração de empresas.Mora espalhou a notícia de que tinham acabado de assassinar o prefeito Frei Bernardo, do município de Libertadores, perto de Caracas. "Todos os setores apóiam nosso presidente, o comandante Chávez, que foi seqüestrado pela cúpula das Forças Armadas", disse ele. "Se não virmos na TV Chávez renunciando, não vamos acreditar nesses senhores", completou Lanyaired San Vicente. "Isso é golpe de Estado."A mulher de Chávez, Marisabel Rodríguez deChávez, disse à CNN que ele lhe contou por telefone nesta sexta-feira que não renunciou, mas se disporia arenunciar perante a Assembléia Nacional, como prevê a Constituição.Já o comerciante Gabriel Mendoza disse que tudo o que eles pedem é um plebiscito sobre se Chávez deve sair ou ficar. "Sem um plebiscito, não ficaremos tranqüilos", garantiu, sob a aprovação do grupo de pessoas em redor do jornalista brasileiro.Os simpatizantes de Chávez hostilizam a imprensa local, por causa da oposição dos principais veículos de comunicação ao seu governo. Na última quinta-feira, Chávez chegou a fechar as quatro maiores emissoras de TV privadas, que cobriam a manifestação contra ele.Em contrapartida, a imprensa local dá pouca ou nenhuma cobertura aos protestos e saques ocorridos em diversos pontos de Caracas e do resto do país desde a queda do presidente na madrugada desta sexta-feira. Um manifestante se aproximou do jornalista brasileiro batendo nervosamente dois pedaços de pau. "Isso aqui é um ato pacífico", repreendeu Lanyaired.Ela disse que seu marido e familiares são militares e que estão "chorando de raiva e de decepção, porque não podem fazer nada" diante da decisão da cúpula das Forças Armadas de depor Chávez. Argenis Albino, de 22 anos, estudante de antropologia na Universidade Central da Venezuela, compara a situação com o que ocorreu no Brasil: "Fernando Collor foi afastado de acordo com a Constituição, e por tê-la violado. Aqui, está acontecendo o contrário. Violaram a Constituição para tirar o presidente.""Aqui vai haver uma explosão social se não se revelar onde está Chávez", advertiu o estudante de artes Humberto Rangel, referindo-se às notícias desencontradas sobre o paradeiro do ex-presidente. "Não aceitaremos a imposição do poder econômico e dos militares corruptos", esbravejou o professor de pedagogia José Hill.A manifestação ocupou as duas pistas da Avenida Urbaneta, uma das principais do centro de Caracas. Outras avenidas e ruas importantes também foram fechadas, depois que manifestantes ergueram barricadas com madeiras e pneus em chamas.Na noite desta sexta-feira, a rodovia que liga o Aeroporto Juan Santa María a Caracas já havia sido interditada por simpatizantes de Hugo Chávez que moram nas favelas das encostas dos morros que circundam a cidade. Uma fila de carros de vários quilômetros se formou na chamada Autopista, impedidos de passar pelas barricadas, pedradas e até disparos vindos dos morros.Sentados ou deitados no chão, ou perambulando pelo aeroporto, centenas de pessoas que desembarcaram desde o início da noite tiveram de esperar a noite toda para poder seguir para suas casas e hotéis. A Autopista só foi liberada na madrugada deste sábado."Começou a guerra", anunciou o motorista de táxi Carlos Alberto Aguilera, enquanto levava o repórter do Estado para um hotel no balneário de Puerto Viejo, ao lado do aeroporto. "Os ricos fizeram a parte deles. Puseram fogo no pavio. Agora é a nossa vez. Vamos defender Chávez até a morte."Para saber mais sobre a Venezuela e os recentes acontecimentos que desencadearam a crise política no país acesse o especial Grandes Acontecimentos Internacionais: Venezuela

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