REUTERS/Jorge Silva
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Chavistas e oposição lutam pelo poder enquanto população sofre

Políticos se concentram em seus objetivos, sem dar soluções concretas para a crise no país, dizem especialistas

Claudia Müller, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2016 | 05h00

O embate entre os chavistas e a oposição deixou a Venezuela polarizada. De um lado, os partidários do governo tomam medidas que atrasam o referendo revogatório e até mencionam dissolver a Assembleia Nacional. De outro, a oposição segue tentando mobilizar a população na luta para tirar Nicolás Maduro da presidência. Distante dessa briga pelo poder, os venezuelanos enfrentam a fome, saques, sequestros, cortes de energia e a violência crescente.

A falta de ações políticas concretas para resolver o problema dos venezuelanos deixou a população à margem dessa briga. “Enquanto os atores políticos se concentram apenas em seus fins, a população nota que ninguém está se ocupando em propostas para resolver os graves problemas”, afirma o cientista político José Vicente Carrasquero.

Apesar de a possibilidade de ação da oposição ser mais limitada por não ter a presidência, o pesquisador do Observatório da Venezuela na Colômbia Ronal Rodríguez acredita que é mais “rentável” mostrar a situação da crise, o que dá força ao referendo. Segundo ele, o governador de Miranda, Henrique Capriles, é um oposicionista com mais meios de fazer algo pelos cidadãos, mas os esforços estão sendo usados apenas para obter a saída de Maduro. 

“O objetivo da oposição é mostrar que a Venezuela está muito ruim e é possível fazer isso passando a responsabilidade de todos os males ao socialismo”, explica Rodríguez. “Os problemas aumentam o valor político e são importantes, pelo menos no discurso, para reforçar a necessidade da saída de Maduro no curto prazo”, completa.

O cientista político Ignacio Contreras acredita que o erro de Maduro foi não ter respeitado a independência dos poderes políticos e intervir nas decisões do Conselho Nacional Eleitoral (CNE). Entretanto, a oposição também é ineficiente. “Os opositores não mostraram coerência em suas propostas em relação ao intenso conflito interno, além da ausência de uma mensagem de esperança”, avalia. “Capriles deve pensar mais no interesse social do que na presidência”, completa.

Ineficiência. Rodríguez acredita que Maduro está usando os recursos que tem para se manter no poder, mas essa estratégia é perigosa porque ele está jogando com a fome da população. Na última pesquisa divulgada pelo instituto Meganálisis, 86,9% dos entrevistados afirmaram que não acreditam que os Comitês Locais de Abastecimento e Produção (Clap) são os mais indicados para distribuir e vender alimentos nos bairros. “Os venezuelanos nunca pensaram que sairiam de supermercados abundantes para ter de pagar por comida em que se recebe o que está disponível”, diz Carrasquero. 

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