Chavistas já debatem possibilidade de campanha eleitoral com líder ausente

A cúpula do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) já debate o rumo da campanha para as eleições de 7 de outubro em razão do câncer do presidente Hugo Chávez, segundo a imprensa venezuelana. Há três cenários possíveis: com Chávez debilitado, sem ele ou a suspensão das eleições, de acordo com um dos líderes chavistas.

LUIZ RAATZ, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2012 | 03h02

Analistas ouvidos pelo Estado concordam que a saúde do presidente alimenta a incerteza sobre os rumos da campanha. O Comando Carabobo - grupo formado por 18 governadores e líderes estaduais que coordena a campanha de Chávez - reuniu-se na terça-feira para definir as estratégias para a eleição e deixou transparecer a preocupação. De acordo com os jornais Tal Cual e El Nacional - críticos a Chávez -, o governador de Portuguesa, Wilmar Soteldo, disse na reunião a portas fechadas que as eleições serão atípicas em razão da indefinição sobre o futuro do presidente. "Há três cenários: eleições com Chávez debilitado, sem Chávez e suspensão das eleições", disse, segundo os dois jornais. "O presidente está doente, tem câncer, são eleições atípicas e, por isso, algum conflito pode explodir."

Soteldo, ex-militar e companheiro de Chávez no golpe frustrado de 1992, também defendeu que os partidários do presidente promovam greves em Estados governados pela oposição para desestabilizar o candidato da Mesa de Unidade Democrática, Henrique Capriles Radonski. "Temos de fazer greves contra eles", afirmou. "Temos de nos preparar para que não haja eleições. A oposição está perdida."

Para o cientista político Alfredo Ramos Jiménez, da Universidade de Los Andes (ULA), a doença do presidente faz com que o chavismo estimule as cisões internas, uma vez que faltam nomes fortes para substituí-lo caso não esteja apto para disputar as eleições.

"Se admitem que Chávez é um candidato debilitado, isso torna escancarada a disputa no chavismo. O PSUV não tem um outro candidato forte para vencer Capriles", disse Jiménez ao Estado. "A hipótese de uma suspensão das eleições provoca incerteza política. Para suspender eleições é preciso justificativas constitucionais e milícias poderiam se tornar violentas."

Os nomes mais cotados para substituir Chávez - que nunca designou um sucessor - são o chanceler Nicolás Maduro, o vice-presidente Elías Jaua e o presidente da Assembleia Nacional Diosdado Cabello. "Cabello tenta se impor como homem forte, mas é impopular dentro e fora do PSUV", observou Jiménez.

Omar Noria, analista da Universidade Simón Bolívar, concorda com a avaliação de Jiménez. "O PSUV por muito tempo dissimulou a gravidade da doença de Chávez, mas agora a possibilidade de ausência dele já é tratada publicamente", afirmou. "Nos bastidores políticos, já se fala sobre a possibilidade de ruptura institucional conduzida pela cúpula militar. Mas o baixo oficialato continua constitucionalista."

Já houve ao menos dois episódios de ruptura interna no PSUV desde a recaída de Chávez. No mês passado, o governador de Monagas, José Briceño, foi expulso da legenda por criticar o governo. Nesta semana, uma facção do partido em Bolívar retirou seu apoio a Chávez.

A MUD rejeitou ontem qualquer cenário em que não sejam realizadas eleições presidenciais. "Quando um mandato acaba, um novo presidente deve ser eleito democraticamente, como manda a Constituição", disse o deputado Juan Carlos Caldera em comunicado. Na terça-feira, o vice-presidente Elías Jaua disse numa entrevista que não há cenário que não inclua Chávez como candidato. "Não resta alternativa aos laboratórios da guerra suja (a imprensa venezuelana) que não seja a de insinuar que Chávez não disputará as eleições", declarou.

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