REUTERS/Andres Martinez Casares
REUTERS/Andres Martinez Casares

Chavistas usaram crise para desviar milhões da estatal PDVSA

Documentos mostram que funcionários cobravam propina de empresários que queriam receber da estatal de petróleo da Venezuela

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

21 Fevereiro 2018 | 20h55

No dia 29 de fevereiro de 2012, o executivo de uma empresa estrangeira escreveu para o representante do regime chavista: “Os doces serão entregues hoje”. Os “doces” eram propinas para manter negócios com a PDVSA, a estatal do petróleo da Venezuela. O dinheiro seria entregue a um parente de César Rincón, funcionário de alto escalão do governo de Hugo Chávez

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No mesmo dia, US$ 150 mil cairiam na conta de Rincón. Para justificar a transação, um recibo fraudulento foi emitido com a justificativa: “assistência técnica”. Os detalhes do esquema de corrupção estão em gravações telefônicas e interceptações de e-mails que fazem parte do indiciamento de cinco venezuelanos, acusados pelo Departamento de Justiça dos EUA de terem desviado milhões da PDVSA. 

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Quatro deles – Luis Carlos León Pérez, Nervis Villalobos Cárdenas, César Rincón e Rafael Muñoz – foram presos na Espanha, em outubro, e extraditados para os EUA. O quinto indiciado, Alejandro Istúriz Chiesa, continua foragido. 

Os documentos revelam que o grupo usou a crise econômica para transferir dinheiro para paraísos fiscais. Os cinco chavistas eram pessoas influentes no regime. Três deles – Villalobos, León e Istúriz – faziam parte do que os promotores americanos chamaram de “time da administração da estatal”. 

Alto escalão. Villalobos era homem de confiança de Chávez e vice-ministro de Energia. Muñoz era chefe de segurança de um departamento chamado “prevenção de perdas”. Istúriz foi homem-chave na Bariven, subsidiaria da PDVSA responsável pela compra de equipamentos e máquinas usadas na extração. Todos cobravam subornos de companhias que tinham negócios com a estatal. 

No entanto, em vez de cobrar para fechar contratos apenas, o esquema se concentrava em tirar proveito da crise. Segundo a investigação, os cinco sugeriam aos fornecedores que sofriam repetidos calotes que eles teriam prioridade no pagamento de suas dívidas se subornassem a direção da empresa. 

Em alguns casos, para receber da PDVSA, a era preciso deixar 10% do valor do contrato para os executivos da estatal. No total, o esquema permitiu que milhões de dólares desaparecessem em contas sigilosas na Suíça, Curaçau e outros paraísos fiscais. Apenas em uma única conta suíça foram transferidos US$ 27 milhões para a gerência da PDVSA. 

Os documentos mostram dezenas de mensagens entre os executivos da estatal e empresários. Em 10 de outubro de 2011, por exemplo, após ser subornado, Istúriz enviou um recado a um empresário: a estatal havia saldado dívidas de US$ 2,5 milhões e de US$ 6,9 milhões.

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Paraísos fiscais. A investigação constatou que o grupo tentou esconder a rota do dinheiro com “transações financeiras complexas” e pagamentos em nome de funcionários, empresas, intermediários, amigos e parentes. Há pelo menos nove contas na Suíça e uma em Curaçau identificadas. 

Os chavistas, porém, não agiram sozinhos. De acordo com os investigadores, um “banqueiro suíço” colaborou para “abrir contas bancárias para funcionários da PDVSA receberem as propinas” – o banqueiro não teve seu nome revelado. 

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Essa não é a primeira vez que dinheiro venezuelano é identificado na Suíça. Em 2016, a Justiça americana encontrou 18 contas com cerca de US$ 110 milhões em contas sigilosas em Genebra. No ano passado, os suíços repatriaram ao Tesouro americano US$ 51 milhões. 

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