Che Guevara e suas raízes irlandesas

Projeto de realizar um memorial em homenagem ao guerrilheiro argentino em uma pequena cidade da Irlanda atrai uma enxurrada de críticas de todos os lugares

MAUREEN , DOWD, THE NEW YORK TIMES, MAUREEN , DOWD, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h05

Billy Cameron, distinto político da região, nunca imaginou que causaria um incidente internacional. "O episódio arruinou minha vida por aqui durante algum tempo", diz, animado a respeito de seus adversários ianques.

A coisa ficou feia depois que Cameron, membro do Partido Trabalhista e da Câmara dos Vereadores de Galway, propôs a construção de um memorial em homenagem àquele famoso filho de Hibérnia, Che Guevara, ou "nosso Che", como Cameron se refere carinhosamente ao revolucionário marxista argentino.

Che fez apenas uma breve parada na Irlanda nos anos 60, visitando certa noite um pub na cidade costeira de Kilkee, em West Clare, após seu voo de Moscou para Cuba ter parado para reabastecimento em Shannon e ser impedido de seguir viagem por causa da neblina.

No entanto, Cameron tem levado adiante a ideia de que o "Dr. Che Guevara Lynch", como é chamado por seus partidários irlandeses, pode ser incluído entre os nomes ilustres de Galway por ser descendente dos Lynchs e dos Blakes, duas das 14 tribos originais daqui, famílias de mercadores bem sucedidos que, um dia, governaram a cidade.

"Patrick Lynch imigrou para a Argentina em meados do século 18, instalando-se em Buenos Aires", afirma Cameron. "Eu diria que Che faz parte da diáspora irlandesa." Em maio, a manchete do site do Irish Central proclamou: "John F. Kennedy bate Reagan e Che Guevara como o mais importante líder mundial de ascendência irlandesa".

A avó de Ernesto Che Guevara foi Ana Isabel Lynch e o pai dele, Ernesto Guevara Lynch, disse o revolucionário a um repórter, em 1969. "A primeira coisa que deve ser destacada é o fato de o sangue dos rebeldes irlandeses ter corrido nas veias de meu filho."

Cameron concorda. "Tenho certeza de que Che estudou as táticas de guerrilha do IRA, assim como fizeram os Mau Mau (organização clandestina) do Quênia". Ele crê que o memorial atrairia turistas da América Latina e da América do Sul.

No ano passado, a Câmara votou a homenagem a Che. Cameron diz ter recebido promessas de auxílio financeiro das embaixadas da Argentina e de Cuba em Dublin. O arquiteto Simon McGuiness e o artista dublinense Jim Fitzpatrick desenharam planos para uma obra interativa tridimensional que seria uma "homenagem total" ao "homem, à imagem e ao ideal", de acordo com McGuiness, composta por três painéis de vidro mostrando a icônica imagem de Che em diferentes cores.

Popularização. É notável que Fitzpatrick tenha sido o barman adolescente que serviu a Che um uísque irlandês naquela noite em Kilkee. O líder guerrilheiro disse a Fitzpatrick que seus ancestrais eram da família Lynch, de Galway, e também que admirava os revolucionários irlandeses que tinham ajudado a Irlanda a "romper os grilhões do império".

Fascinado, Fitzpatrick cresceu e se tornou o artista que, no fim dos anos 60, deu fama à célebre foto de Alberto Korda, que mostra Che de boina preta, criando a partir dela seus próprios cartazes estilizados de cores psicodélicas. Quando os planos para o memorial foram publicados no jornal, no fim do ano passado, teve início uma "imensa confusão", de acordo com Cameron.

A deputada do Partido Republicano, Ileana Ros-Lehtinen, da Flórida, presidente do Comitê de Relações Exteriores do Congresso, ficou furiosa. Ela escreveu à primeira-ministra da Irlanda, Enda Kenny, chamando Che de "assassino em massa e de inimigo dos direitos humanos". Che morreu aos 39 anos enquanto fomentava uma revolução na Bolívia, executado em 1967 por forças bolivianas apoiadas pela CIA.

As universidades americanas de elite entraram na briga. Carlos Eire, professor de Yale, de origem irlandesa e cubana, escreveu uma carta, publicada no Galway Advertiser, condenando o "monstruoso projeto" e sugerindo que não seria "nada mais do que justo" erguer um monumento a Oliver Cromwell ao lado da homenagem a Che.

Fitzpatrick não deixou barato, escrevendo ao Irish Times e dizendo desejar que a Irlanda tivesse uma figura ao estilo de Che, "capaz de nos inspirar" a levar os políticos e banqueiros saqueadores à justiça.

"Che foi um assassino sádico e sedento de sangue que nunca valorizou a vida humana", escreveu Ileana em um e-mail endereçado a mim esta semana. "Sei que Che continua a ser uma figura chique para a elite intelectual que alimenta um romantismo equivocado, mas represento muitas de suas vítimas e sobreviventes, que o enxergam sob uma luz bastante diferente."

A controvérsia fez com que o prefeito de Galway - em fim de mandato - recuasse, dizendo não ter sido informado que a construção de um monumento de verdade estava de fato nos planos. "Eles pensaram que a votação tinha como objeto uma homenagem de que tipo? Uma gincana?", questionou Dermot Keys, repórter do Connacht Tribune.

Cameron, de tendências esquerdistas, diz que Ileana Ros-Lehtinen e seus amigos "lá do sul", são "lunáticos extremistas republicanos que seguem uma pauta definida pelos cubanos de Miami", que não deveriam "ditar aquilo que ocorre na política de Galway".

Glamour. Ele descreve Che como uma marca magnética que já estampou milhões de objetos, de camisetas a xícaras, além de inspirar um imenso volume de biografias, o glamour de Evita e filmes, entre eles um produzido por Robert Redford e dirigido por Steven Soderbergh.

No entanto, é aí que jaz a bizarrice da ideia. O fato de Che ter se tornado uma marca da moda para o capitalismo que ele tentou destruir não significa que ele mereça uma homenagem na Baía de Galway. E o fato de Ileana Ros-Lehtinen saber irritar não significa que ela esteja errada nesse caso.

Cameron espera que a acovardada Câmara de Vereadores decida logo o futuro do memorial. Enquanto isso, ele enxerga o arco-íris totalitário. "O resultado final de tudo isto será o fato de Che ser conhecido por seu sangue irlandês e seus elos com Galway", diz ele. "E isto já seria um feito em si." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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