Denis Balibouse/Reuters
Denis Balibouse/Reuters

Chefe da ONU acusa Trump e políticos europeus de serem 'demagogos e trapaceiros'

Zeid Ra'ad Al Hussein afirmou que esses políticos tem elementos 'em comum' com o Estado Islâmico, além de 'mentirem e manipularem o medo' para conquistar aceitação para seus discursos inflamados

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S. Paulo

06 de setembro de 2016 | 07h16

GENEBRA - O chefe de Direitos Humanos da ONU, Zeid Ra'ad Al Hussein denunciou a "demagogia" de Donald Trump e de líderes populistas da Europa, num raro discurso de ataque direto a políticos por um alto membro das Nações Unidas. 

Falando em Haia, na Holanda, ele direcionou seus ataques contra o holandês Geert Wilders, "um populista e demagogo", além de outros políticos da extrema direita. O holandês é o favorito nas eleições gerais de março de 2017. 

Segundo Hussein, políticos como Wilders "mentem e manipulam os medos". Seu recado foi uma resposta a um manifesto publicado por Wilders na semana passada, propondo fechar todos as mesquitas da Holanda, todas as escolas muçulmanas e todos os centros para refugiados. As fronteiras seriam fechadas para todos os imigrantes de países muçulmanos, mulheres seriam proibidas de usar a burka e o Corão seria banido no país. 

A denúncia contra Wilders ainda vem no momento em que o partido alemão de extrema direita, Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão), superou o partido de Angela Merkel no curral eleitoral da chanceler nas eleições regionais realizadas no último fim de semana. 

Criando polêmica entre os políticos europeus, Hussein acusou Wilders de ter muito em comum com Trump, mas também o húngaro Viktor Orban, a francesa Marine Le Pen e britânico Nigel Farage, entre outros. O representantes das Nações Unidas também alertou que Wilders e os demais "compartilham" ideias com o Estado Islâmico. 

"Todos eles tentam, em vários graus, recuperar um passado tão puro, onde pessoas viviam em isolamento. Um passado que, na realidade, não existiu", afirmou. "As propostas de recuperar um passado supostamente perfeito é ficção. Seus vendedores são trapaceiros." 

Hussein ainda aponta como essas "meias-verdades" tem ganhado espaço nas mídias sociais, principalmente em "mentes ansiosas e pessoas expostas às dificuldades econômicas e a terrorismo". "A fórmula é simples: fazer pessoas já nervosas se sentirem terríveis e, depois, indicar que a culpa é de um grupo externo", apontou. O diplomata indicou que a estratégia prevê que a audiência se sinta bem com uma oferta "fantasiosa". O discurso é inflamado e repetido, até que a "ansiedade se transforme em ódio". 

"Não me confundam. Eu certamente não equiparo esses demagogos nacionalistas com o EI, que são monstros", disse Zeid, um membro da família real da Jordânia. "Mas em sua forma de comunicar, seu uso de meias-verdades e simplificações exageradas, a propaganda do EI usa táticas similares às que são usadas por esses populistas", disse. "E ambos os lados dessa equação se beneficiam mutuamente. De fato, um não ampliaria sua influência sem a ação dos outros."

O que preocupa o chefe da ONU é que a "humilhação racial" que promovem esses populistas tem se transformado em políticas nacionais e municipais, além de discriminação em locais de trabalho e de crianças afastadas de grupos da mesma idade por não "serem "verdadeiramente europeus", ou "verdadeiramente franceses". 

"A história ensinou a esses políticos como transformar a xenofobia em arma", pontuou. "Comunidades criarão barricadas, com populistas - e extremistas - como eles sendo seus comandantes", afirmou Hussein. "A atmosfera vai ficar repleta de ódio e isso pode rapidamente se transformar em uma violência colossal", alertou.  

Num apelo a europeus e americanos, o chefe da ONU pediu que as populações "abandonem essa trajetória" e se pergunta se o mundo está agindo de forma suficiente para parar esses demagogos. 

O que preocupa Zeid é que manifestos como o de Wilders e proposta como as de Trump não tem mais causado revolta. "Há alguns anos, elas teriam causado um furor. Agora, elas são apenas ignoradas. Até quando vamos ficar assistindo a essa banalização? Até que chegue a uma conclusão lógica?", questionou. 

O membro da ONU ainda apelou para que os cidadãos "se levantem e falem em voz alta que isso precisa parar". "Será apenas usando a verdade que a humanidade vai sobreviver. Trace uma limite e denuncie. Diga claramente para que isso pare", concluiu Hussein.

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