Chefe de comissão eleitoral do Quênia diz ter sido pressionado

Responsável pelo pleito diz que pressa em divulgar vencedor pode ter distorcido resultado; já são 300 mortos

Associated Press e Reuters,

02 de janeiro de 2008 | 15h28

Cinco dias após o início dos confrontos que já deixaram mais de 300 mortos no Quênia, o chefe da comissão eleitoral do país, Samuel Kivuitu, admitiu em um artigo publicado nesta quarta-feira, 2, que o resultado que deu a reeleição ao atual presidente do país pode estar equivocado.   Veja também: Entenda a crise no Quênia Mediadores tentam evitar o caos no Quênia   Em entrevista ao mais antigo jornal do Quênia, Samuel Kivuitu disse ter sido pressionado pelo governo e pela oposição queniana a anunciar os resultados do pleito com rapidez - o que pode ter levado a distorções.   A violência que castiga o país africano desde o fim de semana tem como origem denúncias de que o presidente reeleito Mwai Kibaki fraudou a votação, prejudicando o líder oposicionista Raila Odinga. A questão ganhou contornos tribais depois que membros da tribo de Odinga, os Luo, iniciaram uma campanha contra os quenianos da etnia Kikuyu, de Kibaki.   Com as declarações de Kivuitu, as tensões tendem a se acirrar.   Nesta quarta-feira, o governo do presidente Kibaki acusou o partido de Odinga de desencadear um "genocídio" no Quênia.   "Está se tornando claro que esses atos bem organizados de genocídio e limpeza étnica foram bem planejados, financiados e ensaiados por líderes do Movimento Democrático Orange (ODM, na sigla em inglês), antes das eleições gerais", informa uma declaração lida pelo ministro Fundiário, Kivutha Kibwana, em nome de seus colegas de gabinete.   O ODM não respondeu de imediato a acusação. Os partidários de Odinga, no entanto, atribuem a violência a Kibaki por este ter "roubado" os votos da eleição presidencial de 27 de dezembro.   Tentativa de aproximação   Num aparente gesto de conciliação com o ODM, Kibaki convidou todos os membros do novo Parlamento, dominado pela oposição, para uma reunião na Casa do Governo em Nairóbi, na quarta-feira. Não se sabe quantos parlamentares oposicionistas vão participar da reunião.   O uso do termo "genocídio" vai chocar os quenianos, que estão acostumados a que seu país seja visto pelo mundo como uma democracia estável, destino turístico e de investimentos e oásis de paz numa região volátil e marcada pelo genocídio de Ruanda em 1994.   O Quênia é aliado importante do Ocidente em seus esforços antiterrorismo, recebe fluxos crescentes de dinheiro da China e está acostumado a atuar como mediador de paz - e não ponto de conflitos - em regiões tensas da África, como Somália e Sudão.   Desde sua independência do Reino Unido, em 1963, a tribo Kikuyu domina a vida política e econômica no país, que hoje é a maior economia da África Oriental e a que cresce em ritmo mais acelerado.   Países ocidentais pediram calma e que instituições internacionais como a União Africana e a Comunidade Britânica procurem conciliar Kibaki e Odinga. Cada partido acusa o outro de fraude eleitoral, e Odinga planeja um comício gigante para a quinta-feira.   Um grupo local e outro internacional de defesa dos direitos humanos estimaram o número de mortos em "mais de 300" e acusaram as forças de segurança quenianas de "repressão sangrenta" a protestos de partidários da oposição.   "Alguns manifestantes, em reação, foram responsáveis por assassinatos de Kikuyus", disseram a Comissão de Direitos Humanos do Quênia e a Federação Internacional de Direitos Humanos.   E, numa reação em cadeia assustadora, mais e mais casos foram vistos na quarta-feira de mortes por vingança cometidas por militantes Kikuyus, incluindo os integrantes da notória gangue Mungiki, contra membros das tribos oposicionistas.   Massacre na igreja   Cerca de 30 Kikuyus morreram na terça-feira quando uma multidão ateou fogo a uma igreja onde os Kikuyus tinham se refugiado em Eldoret, no oeste do país. O episódio lembrou os massacres de centenas de milhares de pessoas em igrejas durante o genocídio de Ruanda em 1994.   O ataque em Eldoret foi um dos piores episódios na violência que já levou quase 100 mil quenianos a abandonar suas casas, sendo que alguns atravessaram a fronteira do Uganda.   Em Naivasha, no vale do Rift, dezenas de pessoas ficaram feridas em ataques de vingança pelo massacre na igreja, e cerca de 300 moradores locais apavorados passaram a noite acampados na cadeia e na delegacia de polícia.   Kibaki tomou posse no domingo, depois de os resultados oficiais da eleição indicarem sua vitória sobre Odinga por margem estreita de votos. A missão de observação da UE disse que a eleição "não satisfez os padrões internacionais e regionais chaves em eleições democráticas".

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